Uma das causas comummente apontadas para o relativo subdesenvolvimento da Guarda é a inexistência de líderes políticos de dimensão ímpar, com influência real nos corredores do poder em Lisboa e estatuto político nacional.
Essa constatação parece comprovada com o tradicional alheamento da nossa sociedade relativamente à liderança da Câmara Municipal. É manifesta a dificuldade dos partidos em lançar candidaturas de vulto – facto apenas em parte explicável historicamente pelo temor reverencial para com o dinossauro Abílio Curto –, tendo as candidaturas à autarquia sido protagonizadas por personalidades, muitas de reconhecido valor, mas politicamente em simples tirocínio ou em trajecto ascendente, não por individualidades de créditos firmados e em fase de maturidade política.
Ora esta situação é paradoxal com o estatuto da Guarda de capital de distrito, com natural importância política, e será parte da explicação para o progressivo esvaziamento desse estatuto.
Surpreendentemente, porém, os últimos tempos têm sido animados pela especulação sobre potenciais candidatos e a disponibilização de diversas individualidades para esse desafio. Recordo que a comunicação social identificou quatro candidatos do Partido Socialista, a que muitos acrescentaram o nome de Pina Moura, e, mais recentemente três autarcas históricos e com obra feita do P.S.D. também manifestaram a sua disponibilidade: José Manuel Biscaia, de Manteigas, Júlio Sarmento, de Trancoso e por fim Álvaro Amaro, Presidente da Câmara de Gouveia.
A ano e meio das eleições autárquicas, esta dinâmica política parece indiciadora de novos tempos, nunca como hoje a Câmara da Guarda havia merecido tal interesse. Em comum, todos os pré-candidatos reconhecem o aliciante do desafio; e muitos admitem a necessidade de formular novas estratégias para reposicionar a Guarda num contexto regional e nacional a que tem direito. Para estes, não valerá a pena insistir em experiências passadas que se revelaram improdutivas: os erros do passado devem ser corrigidos e alguém tem de ser responsável pelos indicadores comparados pouco abonatórios para a nossa cidade e para o nosso concelho.
Talvez a explicação para este interesse pela Guarda resulte da necessária emersão de um nova liderança, de tipo regional, resultante do processo de descentralização administrativa em curso. Até agora, apenas Carlos Pinto, caso faça vingar a Comunidade Urbana delimitada pela Gardunha, poderá aspirar a esse estatuto. E a conquista de uma capital de distrito é, sem dúvida, um argumento curricular importante, para quem tenha essa ambição.
Certo é que a Guarda só tem a ganhar com a disponibilização de tantas personalidades. Seria de todo o interesse que os novos líderes fossem gerados na nossa comunidade, mas as experiências positivas de outras cidades que importaram políticos credenciados, quer do seu distrito, quer mesmo das elites políticas nacionais, devem sobrepor-se à tendência de recorrer à prata da casa, especialmente quando esta é de má qualidade ou dá sinais de oxidação!
Por: Rui Quinaz


