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Um Problema Ignorado

Em 1940 havia em Portugal vinte idosos (com mais de 65 anos de idade) por cada cem jovens (com menos de 15 anos). Não havia, ou quase, segurança social, a não ser a assegurada pelas famílias, mas se estivessem então generalizados os descontos, com tantos activos por reformado, não estaríamos hoje a começar a necessitar de transferências directas do Orçamento Geral do Estado para o pagamento de reformas e outras prestações sociais. Hoje temos essas prestações por garantidas e parece-nos inadmissível que se ponha em causa o nosso direito à reforma aos 65 anos. Não descontámos para isso uma vida inteira pelo menos onze por cento da nossa retribuição?

Agora, números de 2009, há mais de cem idosos por cada cem jovens e a tendência agrava-se. Vai haver cada vez menos a descontar e cada vez mais a receber reformas, e por mais tempo. É que em 1970 a esperança média de vida para os homens, em Portugal, era de apenas 64 anos e hoje é superior a 75. Hoje ficamos reformados durante muito mais tempo e, se fizermos bem as contas, rapidamente concluímos que os descontos feitos “durante uma vida inteira” não chegam para pagar os anos expectáveis de reforma (fora os subsídios de doença, desemprego, de funeral). E se os descontos dos já reformados não chegam, os daqueles que ainda estão em idade activa e que já sabemos irem ser cada vez menos também não vão chegar.

Os números não mentem e as tendências não mostram sinais de querer inverter-se. A classe política também não mostra sinais de compreender o problema, e muito menos de ter uma solução para ele. O PS, por exemplo, recusa discutir o “Estado Social”. O PCP não aceita recuar numa só das “conquistas de Abril”, incluindo a reforma aos 65 anos (e se possível mais cedo) e por mais evidente que seja que algumas dessas conquistas são já insustentáveis. A esquerda em geral, aliás, sobre o problema demográfico pouco tem a dizer, interessando-se muito mais por questões como o aborto e o casamento entre homossexuais. O PSD e o resto da direita, por sua vez, estão a fazer o que podem para expulsar de Portugal, e da sua “zona de conforto” os cada vez menos jovens em idade fértil. Tudo isto sabendo-se que Portugal é o segundo país do Mundo com mais baixa taxa de natalidade.

Qualquer dia estaremos reduzidos ao pensamento mágico e, como os povos polinésios dos cultos da carga que construíam faróis com a ilusão de que estes chamariam os navios, iremos construir maternidades na esperança de que nasçam crianças. Entretanto, há o desconsolo de verificar que um dos maiores problemas do nosso tempo, talvez maior do que o da dívida, do défice, da corrupção, não tem praticamente tempo de antena e é ignorado por praticamente todos.

Por: António Ferreira

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