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Um país em depressão

Pontos nos Is

Não querendo fazer um balanço do ano 2003, há, no entanto, algumas notas a apresentar.

Este foi um ano mau. Um ano, por autonomásia, depressivo, no dizer de Eduardo Lourenço, que não tem muito para recordar, mas que não podemos esquecer,

O acentuar da crise económica, com a generalidade dos portugueses a sentirem maiores dificuldades no seu dia-a-dia. O crescimento do desemprego a assustar a maioria e o apertar do cinto a fazer-se sentir. O Governo, incapaz de traçar um rumo mobilizador e que inverta a tendência, apostou tudo no cumprimento de um Pacto que não nos dá folga. É verdade que o país não podia continuar a viver com um défice descontrolado, mas não ter outros objectivos para além do controle das contas públicas é sinal de completa incapacidade de quem nos governa.

Reflectir sobre a catástrofe que assolou o país – os incêndios – é uma descoberta que todos sentimos. Foi triste ver como todo o território era frágil perante as labaredas que o calcinaram. Foi triste ver o país real impotente diante da tragédia. Era um Portugal que acordava do seu novo-riquismo. O mundo inteiro viu imagens de um país arcaico, com gente em lágrimas, que lutava contra as chamas com ramos de gesta, enquanto tentava salvar os seus parcos haveres.

Os incêndios vão continuar a agoniar as nossas gentes e a consumir a natureza. Muito se tem debatido, mas nada irá mudar. No próximo Verão a tragédia e o sofrimento irão regressar, as autoridades continuarão a discutir responsabilidades e os bombeiros a reclamar mais meios (que, em muitos casos, não necessitam).

Este foi o ano em que a pedofilia ocupou os telejornais. O escândalo da Casa Pia perpassou uma sociedade de brandos costumes onde alguns “figurões” se sentiam no direito de abusar de inocentes. Independentemente dos nomes e apelidos os pedófilos não podem ser perdoados.

E a guerra… Este foi um ano de tragédia para a humanidade. No Iraque não há vencedores, mesmo concordando que Saddam era um tirano e que o mundo “civilizado” não podia continuar de braços cruzados.

Muitas outras razões caberiam aqui para dissertar sobre este ano de má memória. Deixou dois últimos pontos de reflexão:

A sinistralidade nas estradas continua. As autoridades para combater a tragédia esconde-se nas bermas da estrada para controlar a velocidade e multar. Perseguem a alta velocidade com carros “à civil”, que servem para penalizar, mas que não contribui para a mudança de hábitos. A falta de civismo, as estradas mal sinalizadas, os excessos de álcool e de velocidade e, em especial, a má condução são realidades que não se mudam apenas pela força da lei e da multa.

A miséria em que vivem um quinto dos portugueses é aterradora. Num país onde se gasta tanto dinheiro em eventos de interesse duvidoso, em festas faustosas, em estádios em excesso, etc, mais de 20 por cento das pessoas vive abaixo do limiar da pobreza. Portugal é um país onde a pobreza persiste, muitas vezes escondida, outras à nossa porta, e ninguém faz nada. Que este Natal sirva, pelo menos, para tomarmos consciência de uma realidade social tão triste.

Luís Baptista-Martins

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