David Bromwich, um professor de literatura em Yale, publicou recentemente um livro onde demonstra o “fracasso retórico” de Obama. Um fracasso, diga-se, que ninguém previu, a começar pelos seus detractores. Desde o início, os seus críticos mais acérrimos limitaram-se a prever uma quebra inevitável de popularidade quando a retórica embatesse no duro pavimento da realidade. Partiram, todavia, do pressuposto errado de que as “inquestionáveis faculdades retóricas” de Obama se manteriam intactas.
A que se deveu, afinal, esta surpreendente degeneração retórica?
Obama é um mediador genial, cujo principal fito parece ser conciliar tudo e todos. Ora, nenhuma retórica, por melhor que seja, resiste muito tempo ao desgaste de nunca querer desagradar a ninguém. É possível conciliar posições que distam pouco uma da outra. Não é possível conciliar posições situadas em extremos opostos – o mais certo, nestes casos, é acabar por ser desprezado e odiado por ambas as partes. Por outras palavras, Obama perdeu (ou nunca teve) a noção do limite possível das distâncias e o centro nem sempre é a melhor posição para tomar decisões.
Obama é avesso ao risco e evita, sempre que possível, tomadas de posição. É um equilibrista, sempre à procura de equilíbrios e consensos, que adora embrulhar com vacuidades, dignas às vezes de um António José Seguro – sim, sim, o fracasso já atingiu proporções desta magnitude.
A título de exemplo, ainda hoje ninguém percebe o que é que ele pretendia exactamente com a reforma do sistema de saúde, apresentada como a grande vitória do seu mandato e que o Supremo Tribunal caucionou a semana passada ao considerá-la constitucional – uma reforma, sublinhe-se, mínima, tornando os seguros de saúde (privados) obrigatórios e permitindo, assim, incluir os 50 milhões de americanos que se encontravam num limbo, uma vez que não eram suficientemente pobres para terem acesso ao medicaid.
Até que ponto este “novo” sistema de saúde se aproxima ou não do idealizado por Obama? Ninguém sabe ao certo, porque o homem foge de tomadas de posição claras como o diabo foge da cruz.
Desgraçadamente, os EUA correm hoje sérios riscos de bloqueio. São um país dividido ao meio, em que as posições se extremaram imenso nos últimos tempos. De um lado, os defensores de, digamos, uma espécie de “social-democracia à europeia”, preconizada por Obama; do outro, os radicais do Estado mínimo. Não há mediação possível que concilie o inconciliável. Nestas circunstâncias, é preferível alguém com ideias claras sobre o que há a fazer e com capacidade retórica para convencer e arrastar a maioria.
Numa palavra, Obama é o homem errado, no lugar errado, no momento errado.
Por: José Carlos Alexandre


