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Um animal muito especial

Mitocôndrias e Quasares

O que torna os homens iguais e os distingue dos restantes animais é uma pergunta que fazemos há muito tempo. Referiu-se a adaptabilidade ao meio, mas o que parece mais característico da nossa espécie é a adaptabilidade aos diferentes meios ecológicos.

No seu livro “As Origens da Civilização”, Gordon Childe analisa a questão da capacidade de adaptação dos homens e das outras espécies e chega a algumas respostas realmente muito interessantes. Afirma, por exemplo, que nas denominadas Idades do Gelo (há aproximadamente meio milhão de anos) as regiões hoje conhecidas por Europa e Ásia passaram por períodos de intenso frio que duraram milhares de anos. Nesse tempo, as gerações de diversas espécies sucederam-se e cada uma delas sofreu pequenas alterações. Foi assim que se formaram os peludos mamutes, o que significa que são a consequência da acumulação de variações hereditárias sucessivas. De acordo com as palavras do próprio Childe: «Esta é a única raça capaz de resistir às condições glaciares das regiões setentrionais da Europa e da Ásia. O mamute adquiriu, assim, o seu revestimento de lã permanente, como resultado de um processo que abrangeu muitas gerações e milhares de anos. Durante as Idades do Gelo já existiam várias espécies de homens, contemporâneos do mamute: caçaram estes animais e desenharam as suas imagens nas cavernas. Mas não herdaram revestimento da pele nem desenvolveram nada de semelhante para fazer face à crise. Em vez de se aguardarem as lentas alterações físicas que acabaram por permitir aos mamutes resistir ao frio, os nossos antepassados descobriram a forma de controlar o fogo e o modo de fazer casacos de pele».

Desta forma, os homens foram, tal como os mamutes, capazes de fazer frente ao frio, mas contaram com uma vantagem que lhes asseguraria a sua sobrevivência: os homens eram capazes de despir o agasalho, enquanto os mamutes não. Assim, quando a Idade do Gelo acabou, o Homem continuou o seu caminho, e o mamute extinguiu-se.

Os mamutes passavam o seu revestimento de geração em geração, os homens, pelo contrário, deviam ensinar à sua descendência tudo o que tinham aprendido sobre o fogo e as ferramentas, o que lhes permitiu melhorar a sua comunicação e o trabalho em equipa. Os Homo sapiens conseguiram sobreviver ao ambiente, à semelhança dos mamutes, mas fizeram-no melhorando a sua cultura material. Sobre isto afirma Childe: «Tanto a evolução como as mudanças culturais podem ser consideradas como adaptações ao meio. Tanto o Homem como o mamute adaptaram-se com êxito ao ambiente das Idades do Gelo. Ambas as espécies floresceram e se multiplicaram nessas condições peculiares. Todavia, a sua história diverge no final. O mamute adaptara-se demasiado bem a um conjunto de condições em particular; era excessivamente especializado. Todas as características corporais que o tinham capacitado para prosperar nas Idades do Gelo – o revestimento de pêlo, o aparelho digestivo adaptado para se alimentar de musgo e pequenos salgueiros, os cascos- converteram-se em desvantagens para os climas temperados. O Homem, por seu lado, podia abandonar o seu “revestimento”, se sentia demasiado calor, podia inventar outras ferramentas e podia optar pela carne de vaca em substituição da carne de mamute».

Neste sentido, é possível concluir que todas estas capacidades especiais que os seres humanos foram adquirindo permitiu a multiplicação da energia produzida pelo Homem, o que se traduziu na sua influência crescente sobre a biosfera e desencadeou a sua expansão cultural.

Por: Carlos Costa

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