Arquivo

Três tristes tretas (sem ornitorrinco)

Observatório de Ornitorrincos

O governo de José Sócrates tomou posse há seis dias e ainda não resolveu o problema dos idosos, ainda não promoveu os 150 mil empregos, ainda não eliminou o défice. Dirão os acomodados que seis dias são muito pouco. Não é bem assim. Em seis dias, Deus criou o Céu, a Terra, a Luz, o Homem, depois de parar para descansar ao sétimo dia. Acredito que os seis dias da criação sejam uma metáfora, da mesma forma que Deus é também uma figura de estilo. Sócrates, ele próprio uma figura com estilo, não pode deixar-se ultrapassar por divindades e mitologias. Exigimos um primeiro-ministro bíblico. Em seis dias o exército israelita alterou as fronteiras do estado judaico, controlando os montes Golan, o deserto do Sinai, a faixa de Gaza e a Cisjordânia. Não se pede a José Sócrates que invada Fuentes de Oñoro e controle militarmente todo o planalto a norte de Gredos. Seis dias bastaram para o Sporting passar de grande candidato à vitória na Taça UEFA a “continuem a jogar assim e nem em terceiro lugar ficam” e para o Benfica passar de um plantel fraquinho e espremido para “este ano ainda ganham esta merda”. Não são necessárias transformações tão radicais. Mas já passaram seis dias e este país continua na mesma.

A nomeação de Freitas do Amaral para ministro dos Negócios Estrangeiros terá resultados bastante positivos a médio prazo. Na realidade, quem somos nós para ter relações de amizade com os EUA? E quem são os EUA para julgar que têm os amigos que querem só porque são mais ricos e mais desenvolvidos? Só porque comparou Bush a Hitler? Freitas é um pensador clássico, inspirado nas cantigas de escárnio e maldizer, que marcaram indelevelmente a história da nossa literatura. Se Afonso, rei de Leão e Castela, escrevia poemas de má-língua, não há razão nenhuma para que Freitas do Amaral, agora ministro de Estado, não contribua com a sua alma literária – relembremos que se trata de um biógrafo e dramaturgo – para a eternização da cultura portuguesa. Esperemos então de Freitas estrofes como

Ai, Bushinho, fostes-vos queixar

Que nunca vos louv’em meu cantar.

Mais ora quero fazer um cantar

Em que vos loarei toda via:

E vedes como vos quero loar,

América burra, feia e vadia.

José Mourinho está a ser atacado pelas organizações de árbitros pela Europa fora. Por ter alegadamente acusado o árbitro do jogo Barcelona – Chelsea de ter sido visitado pelo treinador do Barcelona, Frank Rijkaard. Esse senhor árbitro já veio, feito mariquinhas, dizer nunca mais voltar a apitar. O que até pode ser melhor, porque assim o árbitro sueco pode encontrar-se com o treinador do Barcelona num restaurante ou até mesmo em sua casa. Por outro lado, Frisk pode ter fetiches e preferir balneários a cheirar a pomada para os músculos. No fundo, dou razão aos protestos corporativistas dos senhores juízes da bola. Porque Mourinho não tem rigorosamente nada a ver com a vida sexual seja de quem for. Se um árbitro quer receber um senhor bem vestido como Rijkaard durante o intervalo, não é da conta do treinador do Chelsea. Até porque entre gente educada e bem informada não acredito que não tenham usado o preservativo.

Por: Nuno Amaral Jerónimo

Sobre o autor

Deixe comentário