Dois cidadãos novos ao meu lado. Um de trinta e tantos gesticula com o telemóvel, dá murros e parece que ganha pontos, acelera com os dedos o ecrã e parece ficar feliz quando surgem uns sons no telemóvel. Outra cidadã estranha percorre ansiosa o Messenger e o Facebook. Carrega, empurra, gesticula. A segunda cidadã bufa e aguarda. Os dois ao meu lado na tira apertada de bancos do avião 25ABC. Quando cheguei não houve cumprimentos nem acenos. Deveriam colocar os aparelhos em modo voo e perderiam a internet. Não puseram. Não se conhecem, têm idades diferentes e sexo diferente. Portam-se de modo igual. Estão na malha da incoerência que são as ordens que ninguém vigia ou que, se calha, por serem desnecessárias não se deveriam tornar regras. Já voamos e a 25 C tenta telefonar. O 25 A continua a tentar jogar coisas de futebol – apostas me parecem agora. A distância do solo retira o sinal e os dois se apagam numa profunda tristeza. Ligam modos de se entreter. Ela coloca auscultadores – valha-nos isso – e fica a ouvir música. Ele volta aos jogos memorizados e volta a gesticular com o telemóvel. As baterias lá se vão consumindo e os dois acabam quase no fim da viagem por se encontrar sós, com suas mãos vazias. São vítimas deste outro carinho que converte pessoas em amantes de telefones. São o produto desta outra forma de evitar a solidão sem qualquer contacto pessoal. Falam para os monitores, conversam com alguém distante que não visitam. No 25 B preferia uma conversa, mesmo que pobre. Conhecer pessoas ainda me fascina mais que ver redes sociais.
Por: Diogo Cabrita


