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Teatro Municipal

Foi longa a espera!

Vinte anos depois do encerramento do Cine-Teatro da Guarda, nasce o Teatro Municipal da Guarda como novo palco das actividades culturais da cidade. Vinte anos depois a Guarda volta a ter uma sala condigna, que pode albergar grandes espectáculos e produções de elevado nível.

Para trás fica um processo, mais um, em que a falta de visão e decisão impediram a cidade de estar na “linha da frente” em termos culturais. Ainda assim, cabe recordar que o Cine-Teatro – que chegou a ser uma das maiores e mais emblemáticas salas do país – foi posto à venda e a autarquia, no momento oportuno, abdicou da sua aquisição. O então presidente, Abílio Curto, sem horizontes, como em quase em tudo o que dizia respeito à cidade, não percebeu que tinha sobre aquela sala direitos e obrigações e a sua recuperação era então uma obrigação da autarquia. O “velho” cinema encerrou, foi vendido posteriormente a um empresário do ramo imobiliário e a cidade deixou de ter uma sala apropriada para grandes eventos culturais. A autarquia quis depois adquirir o imóvel ao novel proprietário (um absurdo!), que pedia valores elevados, abortando qualquer possibilidade de negócio.

Optou-se então pelo lançamento de uma nova sala. Em contraste com a insensibilidade e tacanhez de Curto, Maria do Carmo apostou num grande investimento, de raiz, que visa a fruição de grandes espectáculos na cidade. Opção meritória, que encerra alguns riscos, e para a qual é necessária uma estratégia de longo prazo.

O processo de implementação do projecto da nova sala de espectáculos sofreu alguns atrasos e nem sempre esteve clara a estratégia. Contratempos à parte, o TM da Guarda tem pela frente muitos desafios. O primeiro, quiçá, a afirmação junto da comunidade. Os egitanienses têm de sentir orgulho no empreendimento e que é uma obra necessária. Não basta para isso a realização de eventos de qualidade. Tem de haver capacidade de envolver as pessoas, de criar empatia com o cidadão. Obviamente será fácil num primeiro momento, mas depois, se não existirem esses pressupostos, será visto como um custo (elevado) e não como uma mais-valia para a cidade e região (o exemplo do Teatro Municipal de Bragança, em que no primeiro ano conseguiu audiências médias da ordem dos 75 por cento, agora reduzidas para cerca de 50 por cento, é paradigmático).

O cativar novos públicos é, naturalmente, uma necessidade, mas essa é uma empresa difícil. Nem todos comungamos dos mesmos gostos, pelo que, não se poderá agradar a toda a gente (por exemplo, não me parece que a escolha de José Mário Branco para a jornada de abertura seja a melhor opção. Critíco a opção, mas respeito-a. É na variedade e diversidade, dentro de um critério, que reside o sucesso da programação, mas que esperava melhor escolha, esperava…). Mas se o desafio de conquistar novos públicos deve estar presente, essa não será, nem poderá ser, a meta em si mesmo. Um projecto desta natureza tem de ser ambicioso nos riscos e a sua programação não tem de merecer o aplauso unânime. Os responsáveis sabem que é assim. Os guardenses talvez não. Uma programação de qualidade faz uma selecção natural e nem sempre está em consonância com as escolhas da maioria. O Teatro Municipal não será o espaço para espectáculos menores ou actividades brejeiras. Será a estrutura, por excelência, para catapultar a Guarda para uma capitalidade cultural em toda a região. Com qualidade!

Luís Baptista-Martins

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