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Sinais de cultos e rituais: Orjais, Cabeço das Fráguas e Ulaca

Nos Cantos do Património

Foi publicado recentemente um importante artigo sobre as escavações realizadas no templo romano de Orjais (Covilhã). O texto vem confirmar que o templo romano poderá ter sido construído sobre um antigo lugar de culto lusitano. O rochedo “sagrado”, com uma pequena cavidade no topo, foi posteriormente integrado na fachada principal do templo que os romanos construíram nesse lugar “santo”.

Esse tipo de santuário ao ar livre seria frequente entre os Lusitanos da Beira Interior. A famosa inscrição em língua lusitana do Cabeço das Fráguas, monte destacado que divide o concelho da Guarda do Sabugal, pode estar relacionada com outro local de culto ao ar livre. De acordo com a interpretação consensualmente aceite pelos estudiosos na epígrafe, mencionam-se as divindades a quem se faziam sacrifícios de animais. À divindade “Trebopala” sacrificava-se uma ovelha, a “Laebo” um porco, a “Iccona Loiminna” uma vitela, a “Trebaruna” uma ovelha de um ano e a “Reva Tre(baruna?)” um touro de cobrição.

Curiosamente, no Cabeço das Fráguas ainda não se identificaram pios, tanques ou altares rupestres onde se praticavam os sacrifícios. Não se sabe se desapareceram na voragem do tempo ou se nunca terão existido. Só com uma intervenção arqueológica nesse povoado fortificado dos Lusitanos se poderá resolver este enigma.

Os rituais religiosos sacrificiais estão, igualmente, documentados entre os povos vizinhos dos Lusitanos, nomeadamente entre os Vetões que ocupavam a actual província de Ávila, parte da província de Cáceres e de Salamanca, chegando até imediações do rio Côa. No território ocupado pelos Vetões conhecem-se diversos povoados fortificados semelhantes ao povoado do Cabeço das Fráguas. Em alguns deles, encontraram-se diversas pias ligadas entre si por estreitos canais. O mais conhecido desses “santuários”, localizado no povoado pré-romano de Ulaca, tinha uma escada de acesso escavada no rochedo. Os tanques de sacrifício situavam-se no topo do penedo.

Mas muitos dos santuários dos Vetões não se encontravam no interior dos povoados nem estavam directamente relacionados com os aglomerados populacionais. Muitos foram construídos nos limites do território da cada comunidade marcando, assim, o “espaço sagrado” desse grupo.

Também em alguns castros da Beira Alta foram encontrados pequenos tanques escavados na rocha, interpretados como locais onde se realizavam os sacrifícios de animais e se queimavam as vísceras. É o caso do castro da Idade do Ferro da Cárcoda, localizado em S. Pedro do Sul, onde se registaram diversas pias escavadas no granito associadas a desenhos igualmente gravados na rocha. As gravuras rupestres integravam um amplo santuário onde se conjugava arte com “pias”. Além de figuras humanas, gravaram-se “covinhas” e diversos símbolos relacionados com animais representados de uma forma muito esquemática. As “pias” são muito bem trabalhadas e delineadas com tal cuidado e requinte que não poderiam ser confundidas com os bebedouros de animais.

Aliás, a associação destas pias à arte rupestre não pode ser casual. Antes formavam um conjunto coerente com significado ritual e cerimonial que hoje nos escapa na sua plenitude. Pelo menos, parece ser uma área “sagrada” central em relação à localização das habitações e muito semelhante a outros recintos sagrados ou cerimoniais presentes em inúmeros castros do norte de Portugal.

Por: Manuel Sabino Perestrelo

* perestrelo10@mail.pt

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