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Será desta?

Corta!

Realizador sem barreiras, pelo seu cinema passa uma constante sensação de out of crontol, como se o próprio filme ganhasse autonomia e já nada se pudesse fazer para o manter nos limites da sanidade. Tudo, a qualquer momento, promete explodir, num descontrolo ao mesmo tempo assustador e desejado. Mas, por vezes, também a megalomania se mostra, não conseguindo Martin Scorsese evitar a sua costela exibicionista. Numa filmografia repleta de personagens bigger than life, agora também os seus filmes se revelam maiores que a vida.

Se Gangs Of New York condensava toda a sua obra, numa enorme tela pintada por um frenético pintor, numa impossibilidade cada vez maior de imposição de limites ou fronteiras, no seu mais recente O Aviador, a grandiosidade, de filme e personagens, está lá, mas nunca Scorsese parece querer perder a capacidade de tudo controlar. Quando o desejo dos limites ultrapassados nos assalta, já ele por ali anda a tentar manter a ordem na casa. É uma pena que assim seja, mas talvez só assim este consiga chegar ao ambicionado Oscar que há tantos anos lhe escapa e que, este ano, a acontecer o mesmo, seria, no mínimo, um escândalo, que o próprio Scorsese dificilmente perdoaria. O regresso a projectos de menor dimensão, no entanto, está já prometido. Nada como deixar abertas portas por onde depois se pode escapar e refugiar, sem querer dar sinais de fuga e ressentimentos.

Com um Leonardo di Caprio em grande forma a, talvez só agora para uma grande maioria, dar mostras de todo o seu valor, no papel do mítico Howard Hughes, O Aviador é um filme, acima de tudo, feito por um apaixonado por cinema, e em especial os seus anos dourados, para todos aqueles que partilham dessa mesma paixão. Os anos loucos de Hughes, antes da verdadeira loucura, entre aviões, cinema e suas estrelas, encontram na dupla Scorsese/di Caprio os seus melhores mensageiros e interpretes.

Estará longe dos melhores filmes de Scorsese, e talvez até seja inferior ao maldito Gangs Of New York, se colocados lado a lado, mas há nele um genuíno prazer que a todos contagia. O cinema em grande!

Em tempo de eleições

Não deixou de ser engraçado, em tempo de eleições nacionais, andar por aí um filme com o curioso título P.S. Amo-te. Para os mais desprevenidos e distraídos tal cartaz poderá não ter passado de uma declaração de amor pelo partido que acabou por conquistar a maioria absoluta. Para os outros, é o cartaz do novo filme de Dylan Kidd, responsável pela agradável surpresa aquando do seu primeiro filme Roger Dodger. Mas a surpresa inicial, que prometia futuro interessante, acabou aqui por se revelar numa enormíssima desilusão.

Com P.S., o considerado novo Woody Allen, deu lugar a um irreconhecível realizador sem ideias, responsável pelo filme, em muitos anos, mais vazio de ideias, onde tudo surge colado a cuspo, e onde só actores como (a fabulosa) Laura Linney e a revelação Topher Grace lhe conseguem dar alguma credibilidade, e não o tornar como o mais desnecessário dos filmes em cartaz. E só mesmo pelos actores é possível não considerar que as duas horas gastas a ver tal filme não foram das mais estupidamente gastas em tempos recentes. Uma desilusão!

Por Hugo Sousa

cinecorta@hotmail.com

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