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Salve-se quem puder

Editorial

1. Este é um verão atípico em Portugal. Julho foi o mais fresco dos últimos anos, mas agosto está a ser escaldante. Os primeiros dias do mês chegaram com temperaturas recorde. E voltámos a falar da canícula, também conhecida por “calor-cão” (para os gregos, a época de canícula dependia da posição da estrela Sirius, que faz parte da constelação Canis Major ou cão-maior). Aquilo que para alguns é calor consequência da poluição, é um “velho” conhecido com temperaturas acima da média, mas que confirma o efeito dominó das alterações climáticas – a canícula que chegou a Portugal nos primeiros dias de agosto faz-se sentir, também, por todo o hemisfério norte, com um calor sufocante e grandes incêndios.

2. E com o calor chegaram os incêndios. Como todos os anos (arde a sul, porque o norte e centro já foram queimados…). Mas antes de olharmos para o que ficou por fazer ou para as falhas no combate ao fogo em Monchique, temos de ter a honestidade intelectual de reconhecer que este governo se empenhou em forçar a limpeza das matas, maximizou a mobilização de recursos como nenhum outro e deu à floresta a relevância que merece. Evidentemente, fê-lo como consequência da enorme tragédia de 2017, em que arderam mais de 500 mil hectares, em especial no centro e norte de Portugal, com mais de cem mortes, num flagelo que não podemos esquecer. Depois da impressionante tragédia do ano passado, com a qual os socialistas não souberam conviver, o governo respondeu com medidas extraordinárias e regulamentação urgente, nomeadamente na obrigatoriedade de limpeza das zonas próximas das casas, povoações e vias de comunicação. Mas a resposta pronta era óbvia. O governo que não deu conta do recado (porque governar é prevenir; porque governar é responder com capacidade e rapidez às calamidades; porque governar é defender as pessoas e o meio; porque governar é ser capaz de zelar pela vida…), nem pediu desculpa (e a ministra demitida continua a sentir-se injustiçada), deu-se por satisfeito com o pouco que fez.

Chegados aqui, depois de um julho anormalmente húmido, o ministro Cabrita, com a sua habitual altivez e sobranceria, espalhou a mensagem de que o governo tinha feito um trabalho «notável» e por isso a novidade era «não haver notícias de incêndios». Mas bastaram dois dias de canícula, de humidade reduzida e calor extremo, para as chamas voltarem a incendiar a Serra de Monchique e o debate sobre o combate, a negligência, a falta de planeamento, a incapacidade de comandar tantos meios e a falta de seriedade na análise e comentário ao flagelo. Bastaram dois dias de verão, para Portugal ficar de novo refém do medo ao fogo, preso à discussão do que falhou e do que podia ter sido feito. Mais uma vez, António Costa quis falar no trabalho perfeito que o governo estava a fazer na floresta, quando o que se exigia era trabalho, humildade e prevenção. O governo preferia falar em sucesso no combate ao fogo, quando as condições climatéricas não exigiam resposta. O ministro Cabrita criava um léxico de adjetivação e de comunicação em que se davam os parabéns a todos, porque todos executaram um trabalho «notável» (?!?).

E afinal, bastaram dois dias de canícula para mostrar toda a inoperância na prevenção, toda a fragilidade no combate, toda a desorientação no comando.

E, em síntese, a pergunta central: como é possível deixar a Serra de Monchique a arder durante uma semana, com meios como nunca?

Mais do que alocar mais meios, faz falta estudar a floresta, promover a economia local, limpar e levar desenvolvimento ao campo, mas também alterar a rota de combate. O fogo tem de ser combatido, de forma musculada, quando começa, quando ocorre a primeira ignição, e não ficar à espera junto às povoações, para depois, com tudo a arder, obrigar as pessoas a saírem de casa, a abandonar tudo, porque «o mais importante é salvar as vidas» – sim, o mais importante é salvar vidas humanas. Mas não, assim não se salva o meio, assim não se salva nada! Não, o fogo tem de ser combatido no mato, onde arde, antes de se agigantar e levar tudo na frente. E não, os milhões investidos em jipes, camiões ou aviões, não podem ser apenas para gritar às pessoas para fugirem, para deixarem tudo para trás, tem de ser para combater o fogo de forma rápida e intensa. Há muito a fazer, e não se pode fazer tudo de um ano para o outro, mas é preciso fazer melhor.

Luis Baptista-Martins

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