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Retrospectiva/Balanço 2015: Os meus realces pela negativa e pela positiva

Pretendemos com este texto pôr em evidência os principais factos económicos, sociais e políticos ocorridos durante o ano transato no mundo, na Europa, em Portugal e a nível regional e local e que merecem realce pela positiva ou pela negativa.

• A nível internacional

A nível Internacional realço o terrorismo internacional (pela negativa) e o chamado Estado Islâmico, entre outros, os ataques terroristas em Paris e a mais de uma centena de mortos que se lhe seguiram; a vaga de imigrantes para a Europa à procura da paz e do eldorado (negativa mas que pode virar positiva pela juventude que traz à envelhecida Europa), a cimeira do clima realizada recentemente em paris e a luta contra a poluição e o aquecimento global do planeta pela esperança que abre de solução a longo prazo destes problemas altamente preocupantes, a sustentada descida do preço do barril de petróleo – a que alguns chamam a crise do petróleo – neste momento já abaixo dos 40 dólares quando não há muito chegou aos US$140 – e o balão de oxigénio que isso representa para países como Portugal e que tem afundado países produtores como Angola cuja economia estava totalmente dependente das receitas do precioso líquido.

A redução da taxa de juro dos financiamentos internacionais, os juros – relativamente baixos e até negativos – com que alguns países se estão a conseguir financiar e minimizar os problemas das dívidas soberanas, incluindo neste leque de países também Portugal.

A votação nos partidos extremistas na Europa (Grécia, Itália, Espanha, França, Portugal,…), entre eles, a subida ao poder do partido extremista grego Syriza e a sua difícil cooperação com as instâncias internacional e sua manutenção no poder aplicando medidas que sempre contestou materializada na aceitação do 3º resgate à Grécia, a votação record do partido de extrema-direita francesa Frente Popular dirigido por Marine Le Pen, a crise dos países emergentes como a China, Índia, Angola, Brasil e outros, que depois de um crescimento acelerado – às vezes acima dos 10%/ano – atravessam atualmente em fase de recessão acelerada (Angola, Brasil, por exemplo), as eleições em Espanha – quer regionais quer e sobretudo legislativas, a subida dos partidos de protesto espanhóis Podemos e outros e a perda da maioria absoluta por parte do PP espanhol nas eleições recentes (neg) e a necessidade de negociação de um acordo de governo maioritário (haverá uma solução à portuguesa?).

A entrada em crise de países que pareciam estar acima de qualquer suspeita como a Finlândia a Holanda e outros, incluindo a Alemanha e a França que não conseguem desencalhar as respetivas economias, muitos deles tão críticos dos países da Orla Mediterrânica e Ocidental da Europa que se deixaram apanhar pela crise das dívidas soberanas e pela crise económica, bancária e social como é o caso dos chamados impropriamente PIIGS – Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha.

A normalização dos juros de referência nos EUA por parte do FED assente na retoma do crescimento económico (+2.4%) e do consumo, na recuperação do mercado de trabalho (redução da taxa de desemprego) e na recuperação do setor dos serviços, a adoção de uma política monetária mais expansionista na zona euro, a compra maciça de dívida dos países do Euro pelo BCE, a recuperação da confiança dos consumidores europeus, o agravamento das tenções geopolíticas na Síria e Médio Oriente em geral, as alterações do sentido de voto ocorridas na América Latina – Venezuela e Argentina -, a inflação na Europa – estagflação – e as ameaças ao crescimento económico e a valorização do dólar dos EUA face ao euro que reduz o poder de compra dos europeus, aumenta o dos americanos mas favorece economia europeia e desfavorece a do Tio Sam.

• A nível nacional

A nível nacional temos a ténue recuperação económica do país – os primeiros sinais de crescimento não negativo embora muito próximo de zero, a devolução dos subsídios de natal e férias aos funcionários públicos e pensionista imposta pelo tribunal constitucional ao anterior governo, o saldo positivo da balança de pagamentos conseguido nalguns momentos recentes, o relançamento da procura interna com a infeliz retoma das importações e algum abrandamento das exportações contrariando algumas reformas estruturais anteriormente anunciadas.

A redução da taxa de desemprego sem criação de postos de trabalhos só conseguido pelo milagre dos estágios e formação profissional do IEFP conjugado com a saída maciça de jovens para o estrangeiro, a chamada emigração da ‘juventude rasca’, a vitória, a todos os títulos surpreendente, da coligação PSD+CDS/PP – ainda que com uma perda brutal de votos face à maioria absoluta de 2011 – com alguma manipulação dos números do desemprego, do crescimento da economia e de outros indicadores negativos.

A subida ao poder de António Costa e do PS apesar da derrota nas eleições legislativas de outubro, a tomada de posse de um governo improvável, assegurada pelo apoio impensável desde há 40 anos do Partido Comunista+PEV, primeiro, e do Bloco de Esquerda, um partido de protesto geralmente avesso a apoios a governos, depois.

As privatizações de tudo o que havia para privatizar mesmo que com prejuízo para o erário público e daí para os contribuintes – PT/Altice, TAP, gestão dos transportes de Lisboa e Porto,…; pela negativa também a renegociação das parcerias público-privadas (PPP) e o saldo francamente negativo conseguido com esse complexo processo negocial, a manutenção das portagens nas autoestradas de acesso ao interior extremamente elevadas, a perspectiva da sua eliminação ou pelo menos redução substancial deixada em aberto pela campanha eleitoral e por todos os partidos mas de difícil concretização prática, as promessas de descongelamento dos salários da função pública e das pensões/reformas dos pensionistas, a promessa de eliminação da Taxa Social Única (TSU), para já só para os salários mais baixos, a promessa de eliminação da maioria das medidas de austeridade, a reposição de algumas medidas suprimidas pelo anterior governo de carácter mais social, a subida do rating de Portugal de pelo menos uma das empresas de ratings internacionais, o aumento da confiança dos portugueses, a confirmação da crise bancária em Portugal com as intervenções no BES e Banif e tentativa de venda do primeiro e venda do segundo mesmo que com prejuízo, depois de idênticas experiências no BPN há uns anos atrás, o rombo que os contribuintes estão a levar com a solução encontrada para resolver estas crises, o desemprego que teima em ficar e os aumentos dos níveis de pobreza.

• A nível regional e local

Por fim a nível regional e local vêm os seguintes destaques: o marasmo do costume pela negativa sobretudo pela ausência de investimento e de criação de empresas, pelo reduzido número de iniciativas nesta região do interior Beirão em termos de dinamização da atividade económica e social e de criação de postos de trabalho; os festejos natalícios da Guarda, as feiras sectoriais e outros nos bairros durante o verão-festas da cidade bem como outras iniciativas que puseram a cidade na imprensa (pela positiva) e o custo exagerado desses festejos (pela negativa) dada a alegada situação financeira preocupante da Câmara da Guarda.

A inauguração de rotundas emblemáticas na Guarda pelo seu carácter simbólico, pela beleza que traz e pelo ordenamento do tráfego e aumento da segurança que lhe está associado; o super-presépio (700 m2) do Sabugal e o madeiro gigante de Penamacor, porventura o maior do país.

A demora na confirmação da importância do Data Center da Covilhã ao que se sabe ainda sem expressão significativa em termos de emprego e faturação a par dos prejuízos que causou a sua implementação em plena pista principal do aeródromo da Covilhã, a falta de investimentos novos na Beira Interior que fixem os jovens a estas terras, alguma retoma do setor turístico regional e local. Também o não lançamento de obras importantes para a região como a modernização – retificação, eletrificação e reabertura da linha da Beira Baixa no troço Covilhã-Guarda e o não lançamento de uma obra importante que é o acesso na Guarda da futura avenida que deveria ligar a rotunda da Ti Joaquina à VICEG nas proximidades das piscinas municipais, há tanto tempo esperada. A não conclusão da ligação da A25 à autoestrada espanhola em Vilar Formoso/Fuentes de Oñoro e a não realização de algumas ligações transfronteiriças com interesse para a dinamização da atividade económica local.

E, por fim, e pela positiva, a chegada de mais alunos às instituições de ensino superior da região – Universidade e Politécnico e suas Faculdades e Escolas Superiores um fator determinante para a sua sustentabilidade a médio/longo prazo.

Por: José Ramos Pires Manso*

* Prof. Catedrático da UBI e responsável do Observatório para o Desenvolvimento Económico.

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