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Retortillo – a nova ameaça

Agora Digo Eu

Domingo, 30 de outubro, meio-dia. Manifestação em Espanha contra a abertura da mina de urânio a céu aberto entre Retortillo e Villavieja de Yeltes.

Vou cedo, pois não conhecia a estrada quando percebi que Retortillo era mesmo em “cascos de rolha” e onde a máxima da TSF encaixa perfeitamente “Por uma boa história, por uma boa notícia, vamos ao fim da rua, vamos ao fim do mundo”. E aqui está uma boa história para contar.

Cheguei à praça central de Retortillo, pequena aldeia charra, com cerca de 200 habitantes. Dirigi-me à entrada do bar onde estavam sentados três homens. Perguntei onde era a manifestação. Um não sabia, o outro permaneceu calado e o terceiro disse-me que ali não havia qualquer manifestação. Talvez em Boada a 5 km dali. Achei aquilo muito estranho. Dirigi-me então ao parque infantil, logo em frente, e voltei a questionar um rapaz que por ali estava. Disse-me precisamente o mesmo. Nada sabia. Mas… Como gato escondido deixa sempre o rabo de fora, olhei para o tronco da árvore próxima e aí estava uma pequena parte de um panfleto que tinha sido rasgado.

Abandonei Retortillo e ao chegar perto da ponte, já à saída da aldeia, um homem na ordem dos 80 anos de idade que, pelos vistos, tinha assistido de longe a toda esta cena, mandou-me parar e disse-me «Olhe, por cá há um código de silêncio. Siga em direção a Vitigudino. A manifestação é junto ao estaleiro da mina. Em balneário de Retortillo. Aqui pensam que vão ficar ricos. São doidos». Agradeci, arranquei e a cerca de 4 km dei de caras com a Guardia Civil que me disse que a estrada 322 estava cortada devido a uma manifestação.

Encostei a viatura e integrei a manifestação convocada pela plataforma “Stop urânio” onde 300 pessoas gritavam palavras de ordem contra a abertura da mina. Pela natureza, pela saúde. Percebi então que a empresa Berkeley minera, España SL já tinha feito o trabalho de casa junto das freguesias limítrofes prometendo, entre outras coisas, criar cerca de 200 postos de trabalho, numa mina que terá aproveitamento numa área de 2.517 hectares e uma profundidade que pode chegar aos 120 metros, para laborar nos próximos 10 anos.

Para funcionar à vontade, a Berkeley poderá ser autorizada a desviar a estrada SA – 322, ao Km 30, construindo aí um enorme muro, tipo muro da vergonha, para que ninguém consiga ver o que por lá se irá passar. Vão arrancar, em área protegida, mais de 25 mil árvores, por em causa a criação do célebre porco ibérico e da vaca Morucha, onde a lixiviação estática, que facilitará a extração do óxido de urânio, irá requerer enormes quantidades de água, misturada com inúmeros produtos químicos como o ácido sulfúrico, a soda cáustica, o ácido clorídrico, ingredientes necessários para a decantação do mineral, ocasionando impacto ambiental no rio Yeltes que corre para o Huebra e este, por sua vez, desagua na barragem de Saucelle, pondo em causa o riquíssimo ecossistema do Douro internacional. E isto tudo a escassos 40 km do nosso país.

A presença do mineral e os efeitos do pó radioativo, com destaque para o urânio 238, poderá por em causa a saúde das populações, pois quer se queira quer não, a inalação produz risco elevadíssimo de cancro no pulmão desgastando todos os tecidos, com o consequente aparecimento de malformações congénitas em homens e animais.

Na próxima segunda-feira haverá encontro ibérico entre António Costa e o pior presidente de governo que Espanha já teve – e, ao que parece, irá continuar (com o estúpido e infeliz aval do PSOE) –, onde irão ser tratados inúmeros assuntos diplomáticos, de índole económico-financeira, ficando arredado dos planos da reunião este pertinente assunto. Tenho para mim que deveria ser o primeiro em cima da mesa. Constar da agenda. É que a convenção de Espoo estabelece avaliações obrigando os Estados a pronunciar-se pelos projetos suscetíveis de terem impacto ambiental transfronteiriço. E como todos nós bem sabemos a radioatividade não tem fronteiras e Retortillo é logo ali.

Uma mina de urânio no balneário de Retortillo é um perigo para toda a província de Castilla e Léon e para todo o distrito da Guarda, percebendo que algo deve ser feito por governantes e autarcas nesta vergonha de mais um brinde, completamente envenenado, oferecido numa bandeja de urânio por “nuestros hermanos”. Haja Deus…

Por: Albino Bárbara

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