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Resignação e interesses

Editorial

1. Inebriados pelo futebol quase nos esquecemos do colete-de-forças que nos amarra. Passada a euforia da seleção, voltamos a olhar com preocupação o dia-a-dia e regressam as preocupações pelo futuro. Mas é o presente que nos tira o sono, pela crise nacional a que nos conduziu o governo de Sócrates, pela crise internacional em que mergulhou o ocidente, pela ganância e usura da banca, pela “troika” que veio resgatar-nos mas cobra taxas de juro agiotas, pela destruição de trabalho… pelo desemprego que continua a crescer e pelo governo inepto para mudar alguma coisa.

O mundo mudou. E é com medo que enfrentamos cada uma das mudanças que se nos apresentam. Resignados, sem expetativas, muitos portugueses desistem. Desistem do seu próprio futuro.

O rendimento mínimo cresce, mesmo com regras mais apertadas, são cada vez mais os que só sobrevivem com a ajuda do outro. É isso ou a miséria, a pobreza, a fome…

Impávidos e serenos… resignados.

E de um momento para o outro, quando todos pareciam vacinados contra a indignação ou o protesto, dobrados perante a multiplicação de sacrifícios sem contestação, o ministro da Economia experimentou os efeitos da ira popular na Covilhã. Já era tempo!

Já é tempo dos portugueses exigirem mais apoio à economia e menos à banca; já é tempo de exigirem mais financiamento às empresas que produzem e menos dinheiro para financiar as empresas públicas de Lisboa; já é tempo de exigir medidas e programas de desenvolvimento que visem o desenvolvimento do território como um todo…

2. Pelo meio do tumulto, na Covilhã, ouviram-se palavras surpreendentes. Muito mais que o grito de revolta dos manifestantes, foram as palavras de Carlos Pinto que ressoaram. «Para algumas pessoas, o único Governo que se preocupou com os trabalhadores foi, em 1975, o de Vasco Gonçalves», disse Carlos Pinto, na tentativa de fazer desmobilizar os manifestantes e retirar importância aos protestos. Mas a verdade é que, e Carlos Pinto sabe-o bem, perante o crescimento do desemprego e a falta de expetativas, são cada vez mais os que têm razões para protestar e para se insurgirem. Pode ainda não ser a fome a falar, e o medo pode calar a boca, mas há cada vez mais portugueses indignados e revoltados.

3. A ideia peregrina de António José Seguro de que irá ganhar as próximas eleições por mérito do PS e não por demérito do Governo… é, no mínimo, original e de difícil interpretação. O PS podia (e devia) dedicar-se a escalpelizar e a evidenciar as falhas do governo PSD/CDS; enquanto líder da oposição devia apontar o dedo aos erros da governação; tinha a obrigação de repetir até se fazer ouvir sobre os problemas do país e falta de capacidade do Governo para os enfrentar; deveria identificar o demérito da governação, credibilizando as suas propostas com argumentos convincentes; enfim, a oposição tem que se opor com firmeza e clarividência, e em nenhum momento, porque não governa, pode ter o “mérito” da governação que não tem…

4. Outra singularidade deste PS advém da forma como os socialistas da Guarda rodeiam e apoiam o líder distrital. É extraordinário que José Albano tenha chegado à liderança do PS Guarda com o apoio do “aparelho” do Largo do Rato, então dominado por Sócrates. E é curioso como o “homem de Sócrates” na região tenha passado a ser o grande apoiante de Seguro no distrito. E o mais inacreditável é que os apaniguados de Sócrates e Albano sejam os combatentes e defensores das ideias de Seguro… Ideias? Quais ideias? Esta gente move-se por interesses de grupo, pelo clã, pelo instinto de sobrevivência e passam por cima de tudo o que mexe ou fala contra eles. O PS dos valores universais, da diversidade, da exigência moral, contra a discriminação, contra a submissão, pela liberdade de uns e outros… foi enterrado por estes socialistas de polichinelo. Alguém os devia obrigar a ler a Declaração de Princípios do Partido Socialista.

Luis Baptista-Martins

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