1. Em relação à crise financeira e, mais concretamente, em relação aos recentes problemas do sistema financeiro português, ao BCP e ao BPN, houve uma tendência de opinião que me surpreendeu. Tendo sido cometidos graves desmandos financeiros, o discurso de alguns importantes agentes políticos e financeiros (lembro-me, por exemplo, de Paulo Portas e de Bagão Félix), virava-se, não para os reais responsáveis pelos desmandos e pela grave responsabilidade de desestabilização de um dos pilares decisivos do sistema social português, mas sim para as culpas do regulador, que não soube prevenir os problemas. O que é curioso é que estes mesmos críticos são os que abominam o Estado regulador, preferindo o Estado mínimo. E o que é mais curioso ainda é que o seu discurso estava apontado não aos prevaricadores, mas aos vigilantes, não aos ladrões, mas aos polícias. Foi evidente uma linha de argumentação: atacar o regulador e desvalorizar o infractor. Nesta frente argumentativa quem era atingido, além do governador, era o governo. Foi assim com o BCP. Foi assim com o BPN. A culpa não morre solteira. A culpa não é do ladrão, é do polícia. Esta linha argumentativa até nem é muito estranha. Mas é absolutamente imoral.
2. Ganhou Obama. E foi um facto histórico, atendendo à própria história dos EUA. Muitas coisas poderão mudar, mas não será a cor da pele do Presidente que funcionará como varinha de condão da política americana. Claro, num mundo onde o simbólico é rei, incompreensível seria que esta mudança não tivesse consequências. O estilo em política é importante. O mandato de confiança, numa política personalizada, também. A mundividência democrática, depois, é diferente da mundividência republicana, sobretudo quando a estratégia dos «neocons» surge fragilizada. E creio que a simpatia do «resto do mundo» por Obama também não será indiferente à sua própria política internacional. Claro, os sistemas são importantes, mas os homens que os animam também. Por outro lado, o simbolismo da passagem de testemunho de Bush para Obama significou mais do que uma mera passagem de rotina: bastou olhar para as fotografias. Barack Hussein Obama é um nome cheio de significado, mas também fortes de conotações políticas, civilizacionais e culturais. E este é um valor intangível de enorme importância. Claro, não será o habitual realismo político a valorizar esta mudança, mas se ela for usada como variável numa política de projecto, então poderá significar uma grande mudança nas relações internacionais.
3. Vive-se num período intelectualmente muito estimulante, sobretudo quando muitos já se esqueceram da queda do Muro de Berlim. E outros nem sequer olham para os imigrantes da ex-URSS como testemunhos vivos do «triunfo» do socialismo real e do «brilho» daquele Sol na Terra que era a URSS! Período muito estimulante porque acham que, agora, é que chegou o fim do capitalismo, confundindo a «economia de casino» com as tendências estruturais da economia ocidental dos últimos duzentos anos. Claro, é sempre mais fácil decretar o fim de qualquer coisa do que anunciar o princípio de outra. À boa maneira «tabloid»: «good news are no news». O que ninguém conhece são as suas soluções para melhorar a sociedade, fora daquele modelo comunitarista que defendem, onde aos «direitos», «liberdades» e «garantias» nunca correspondem «deveres». Compreende-se, por isso, que estes profissionais das «liberdades, direitos e garantias» cantem em coro, com os profissionais do «tabloidismo» dominante, as constantes desgraças de um país onde parece não partilharem responsabilidades.
4. Parece, de facto, que anda por aí uma discussão sobre o fim do capitalismo. Trata-se de órfãos do «socialismo real» e de personagens que lembram os relógios parados: conseguem estar certos duas vezes por dia. É claro que a questão não reside numa visão linear do desenvolvimento histórico, onde a fase superior do capitalismo corresponderia à fase do seu esboroamento. Do que se trata não é da crise do modelo, mas da crise de uma função do modelo, da sua componente financeira e do papel que assumiu no conjunto do sistema, a que se chama «financiarização» da economia. A verdade é que para este sistema não existe, para já, alternativa. E a estes arautos eu aconselharia a que voltassem a ler os clássicos da política, sobretudo os contratualistas, para verem como confundem a realidade com o alcance do próprio nariz.
Por: João de Almeida Santos


