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Política Natural

Observatório de Ornitorrincos

Outra vez o monitor por preencher, por ocupar, por escrever, não é a angústia do guarda-redes antes do pénalti, não se trata de bloqueio, esse famoso do escritor, é apenas a indecisão, a hesitação perante as vagas de destruição que a Natureza provocou no Haiti, no Chile ou nas escutas a amigos do primeiro-ministro. É ficar parado com essa perplexidade ao ver a água que tudo arrastou na Madeira, a água que submergiu o sul de França e a água que metem os administradores de grandes empresas. Se juntarmos a areia que nos atiram para os olhos e o vendaval que se avizinha, a política portuguesa está cada vez mais parecida com a praia da Figueira da Foz. Já nem lhe falta o Carnaval.

A opinião da rua chama à vida pública a porca da política, a política é a teta da vaca, as ligações escuras são polvos e a verdade escorrega como enguias. Os administradores reproduzem-se como coelhos, há presidentes de empresas com apêndices taurinos e deputadas socialistas que voam mais do que andorinhas. O orçamento tem tantas camadas que deixou de ser uma questão económica, pertence já ao estudo da geologia. De cada vez que nasce o “Sol”, o PS expele mais matéria fervente do que o Vesúvio.

A criação de metáforas entre política e Natureza não são estilismos com deferência a Darwin, são a principal contribuição de Fernando Nobre para a discussão pública. Não o incomodam picadelas de mosquito, diz ele. Pela primeira vez, a malária poderá chegar à sala dos portugueses à hora dos debates presidenciais. O presidente da AMI só se preocupa com dentadas de crocodilo. Presumo que se refira aos pólos Lacoste de Francisco Louçã e ao apoio repentino do Bloco de Esquerda a Manuel Alegre. Desconhece-se o receio do candidato no que diga respeito a coices de mula ou atropelamentos de jipe. Fernando Nobre é humanitário, metafórico, perfectível (palavra que ele próprio utiliza na entrevista ao jornal “I”) e diz-se, numa auto-definição quase maupassantiana, “um pilar que se ergue”. Nobre promete mais metáforas, oferece-nos de bandeja uma campanha entre espadachins da palavra, entre um médico alegórico, um poeta florentino e um professor ferreiro (por criar tempos verbais como “façarei” enquanto malha na palavra ainda a ferver). Espero, porque da política se espera muita coisa, excepto aquilo para que ela serve, que as presidenciais de 2011 não sejam um concurso de poesia juvenil. Aguardo que surja ainda um candidato sério, como Manuel João Vieira. Tenho do debate político a mesma opinião que Woody Allen tem do sexo: “É sujo? Só se for bom”.

Por: Nuno Amaral Jerónimo

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