Uma das grandes dores que sempre me tocou foi património em ruínas, abastardado ou vítima de desleixo.
A minha carta astral, que me apresenta todo virado para a História, a Filosofia, a Arte, a Literatura e a Poesia, corrobora eloquentemente, pela mão de distintos especialistas, a minha idiossincrasia.
Quando, nos livros didácticos, surgem monumentos com ervas daninhas à porta, de entrada, lateral, no claustro, ou seja em que área for, sinto um profundo mal-estar interior.
Não importa se é S. Salvador de Carrazeda de Ansiães, o portal com gablete da matriz de Santiago do Cacém (no portal os vândalos escreveram: “Vota PS” e, mais abaixo, duas vezes, “PS”), Juromenha, o claustro da Sé Velha de Coimbra ou os nossos pavilhões de ferro do Sanatório.
Não aponto o dedo a ninguém, bem entendido. É uma trágica dimensão do nosso País, do seu cerrado sub-desenvolvimento cultural – e também, obrigatório dizê-lo, às vezes, dos horizontes dos autarcas…
Mais que o requinte da Cultura, a Arte é o religioso potenciado ao sublime. E, fora da Religião (não confundir com confessionalidade tal ou tal), não há salvação. Esta não é nenhuma novidade para o mais humilde iniciado em História da Arte.
Trás-os-Montes sempre foi para mim uma especial sedução. Por um lado, porque nunca o conheci bem; depois, porque duas personalidades transmontanas que conheço são do melhor que jamais encontrei. Uma delas é uma humanidade a roçar o excelso.
Decidi, no 1º dia livre de Páscoa, ir a Carrazeda, da qual, ademais, não se vende um único postal ilustrado. Da vez final, na Câmara Municipal, o funcionário que me atendeu disse-me: “Se tivesse vindo daqui a um mês já os teria”.
No regresso comprei o postal em Vila Flor, onde, igualmente, visitei o museu.
O proverbial acolhimento transmontano notei-o bem no simpático empregado da Pinacoteca Municipal. Disse-me que tem “a melhor colecção de máquinas de escrever do mundo” – e não é um museu monográfico.
Tem peças que cabem no âmbito da Etnografia, claro, mas também tem um Eduardo Malta, retratos, numismática, medalhas, arte africana e, inclusivamente, uma roda de caminheta, quando estas ainda tinham pneus de borracha maciça e aros de madeira. Obrigatório e emocionante!
O acervo é tão vasto que está “amontoado”; e o edifício tem carácter. Sucede é que o município, muito provavelmente, tem que desembaraçar-se da aporia que é espólio a mais e espaço a menos.
…Disse emocionante. Reitero-o. Fica-se, v.g., a saber que Maximino Correia – que durante duas décadas foi Reitor de Coimbra – era vilaflorense. Tal qual o famoso criador da, digamos, única unidade industrial transmontana (ao tempo). Refiro-me, bem entendido, ao Engº Camilo de Mendonça e ao aproveitamento agro-pecuário do Cachão.
Haver pessoas tão amantes da sua terra que deixam essa espiritualidade transbordar e marcar o futuro de uma comunidade com um selo grandioso, nunca se louvará suficientemente.
E haver alguém que entenda que o próprio termómetro, em Celsius e Fahrenheit, que ornamentava a entrada das lojas Singer, na altura em que os lavores femininos eram nobreza que podia adscrever-se à mulher, é um espantoso documento histórico, ah!, isso é uma lição de perenidade e de efémero simultaneamente. Um arrasador genuíno!
Vila Flor é uma lição, porque é uma terra de grande carácter!! E esse grande carácter é confirmado na toponímia. Bravo, porque lá há uma avenida chamada Marechal Carmona!!
Não se trata aqui de defender nenhum regime ditatorial – que fique absolutamente claro. Sucede é que a Toponímia não é, propriamente, Política.
Sabe-se hoje como os republicanos não conheciam o País que era o seu – e agora o nosso. Como o regime de Outubro redundou num drama insuperável e como Gomes da Costa, saído de Braga, chegou a Lisboa transbordante de apoios.
Carmona foi um dos que entendeu – como quase a Nação inteira – que devia voltar as costas a uma república tão miseranda e servir Portugal. Com o “filme” sabido (agora) é fácil criticar. Mas Carmona teve com ele milhões de portugueses.
Que a loucura da “esquerda”, incapaz de pensar – ela nem sequer tem aptidão para se fundamentar – tenha anatemizado o Marechal, isso nada admira.
De há muito que Carmona me pareceu injustiçado – ademais porque os altos horizontes lhe eram conaturais – e que, em Vila Flor, continue consagrado é apenas, reitero, uma prova mais do carácter daquela terra.
Assim, humilde e emocionado me curvo. A interpretação da História só pode remeter para uma continuidade que não obedece a modas. Há muito de bom em Portugal!!
Guarda-28-III-05
Por: J. A. Alves Ambrósio


