P – O que significa para si a entrada na Royal Northern College of Music?
R – Significa muito, porque é a escola que tem o melhor nível de violoncelo em Inglaterra e daí sentir uma grande felicidade e uma enorme motivação para a minha auto-estima. Os grandes solistas internacionais passam por lá e é fantástico, uma emoção enorme. Estou muito feliz por ter entrado.
P – Que ambições tem para a sua carreira musical?
R – Acima de tudo, quero ser feliz e ter saúde para tocar violoncelo. Sempre que tocar violoncelo, quero fazê-lo com a alma e com o coração, estando bem comigo mesma. Mas dar aulas numa grande escola internacional ou tocar numa grande orquestra rodeada de grandes músicos (e há muitas pela Europa) são outros objectivos.
P – Que diferenças nota entre a aprendizagem da música em Portugal e na Holanda ou Itália?
R – Há bastantes, nomeadamente ao nível técnico. Aquilo que nós sabemos do Dó Ré Mi Fá Sol Lá Si Dó, os holandeses não sabem. Eles olham para uma partitura e cantam o que está lá. Em termos de aprendizagem nós lutamos e trabalhamos muito porque não temos tantas condições como as que há na Holanda, onde só há que aprender e absorver. Como há mais meios, abrem-se mais meios. Em Itália, são muito desorganizados e, a esse nível, estamos muito melhor, embora houvesse um nível muito bom nos participantes da Masterclasses que eu integrei.
P – Haverá alguma razão especial para a Covilhã ser tão pródiga na formação de bons violoncelistas?
R – Acho que é, sobretudo, a paixão pela música, o talento e muito trabalho. Também há grandes professores, como o Rogério Peixinho ou o Luís Sá Pessoa, que também esteve aqui. E depois a primeira geração de violoncelistas era muito competitiva. Quando o Filipe Quaresma foi para o estrangeiro abriu um caminho. Os que apareceram depois, como é o meu caso, quiseram seguir o mesmo percurso ou ser melhores ainda. Talvez venha daí, porque nos outros instrumentos não há sequer alguém que tenha ido para fora.
P – Como descreve o salto que deu com a saída da EPABI?
R – Meti-me em grandes aventuras. Foi um salto radical, mas progressivo. O meu caso foi diferente do Filipe, porque primeiro fui para Lisboa, depois é que fui para Utrecht e, agora, Manchester. Foi um salto muito positivo, porque me fez crescer muito como pessoa e como instrumentista.
P – Imagina que seria possível manter uma carreira na região?
R – Adorava poder sonhar que sim. Adorava ter uma carreira profissional como violoncelista solista aqui, porque já falei com outros músicos sobre isso. Se houvesse uma orquestra com apoios de todas as Câmaras como acontece com a Orquestra Metropolitana de Lisboa com músicos de cá, que vivessem cá, isso fixava jovens músicos. Por que é que outros não vêm para cá, por exemplo? Não há onde estar, mas se houvesse uma orquestra com todos os grandes músicos de cá, gostava de ter uma carreira nesse plano. Seria muito bom.
P – Acha que os jovens músicos são respeitados quando decidem enveredar por uma carreira profissional?
R – Não. E sinto isso na pele. A minha família olha para mim como se eu devesse ter estudado outra coisa, que não música. Os jovens músicos são postos de lado, com aquela ideia do músico tocar na rua e ser um palhaço.
P – O que se poderia fazer para que a Beira Interior segurasse os seus melhores músicos?
R – Se houvesse uma grande escola superior com grandes professores, chamava muito mais os jovens. A ESART não corresponde às expectativas. Em Lisboa, por exemplo, há mais oportunidades, pois ainda se ganhava qualquer coisa nuns biscates.


