“Em todo o caso, se aprendi alguma coisa com os russos, foi que nunca devemos tentar compreender o que fazem. Caíram directamente da lua nestas estepes.”
Jean-Cristophe Rufin em “O boticário do rei”
À vezes as coisas ocorrem por séries.
Foi o que me aconteceu estas últimas semanas com os Antunes, os russos e os divorciados.
Primeiro:
Fui chamada a Tribunal para depor num caso de “os familiares de um doente contra um colega”. Após prolongada conversa com o Delegado do Procurador da República em que, como é meu hábito, disse exactamente o que pensava, nem mais nem menos, fui confrontada com vários factos constantes do processo. Graças a Deus que não tinha mentido. Como dizem os antigos: “apanha-se mais depressa um mentiroso que um coxo”. E, finalmente, com uma carta opinativa de… quem? Exactamente. Do mais famoso neurocirurgião português da contemporaneidade, Prof. Dr. João Lobo Antunes. Compreendem que, quando tal vi, me estivesse quase a dar o Amok pela 2ª vez no prazo de 4 semanas, o que é demasiado para qualquer mortal (remeto os numerosos leitores que não sabem o que é o Amok para as obras do escritor austríaco Stefan Zweig). Felizmente não tinha havido negligência da parte do meu colega pelo que não houve direito a processo criminal ou indemnização cível. O doente continuou morto e improdutivo, como seria de esperar.
Segundo:
O António Lobo Antunes invade-me a casa na pessoa dos seus romances. Lá por eu lhe chamar querido, não quero com isso dizer que goste de tudo o que ele escreve. Mas já cá estão todos, pela mão de familiares e amigos. “Que farei quando tudo arde?” ainda antes de eu ter conseguido sair “daquela noite escura” para dizer “bom dia às coisas cá em baixo”. Ufa…
Terceiro:
Uma pessoa bem tenta evitar a exposição demasiada à coisa pública não ouvindo noticiários e rarefactando a compra de jornais. Pois não é que quando acontece não resistir à tentação informativa, vai dar de caras com o Miguel Lobo Antunes, nas suas funções de coordenador da equipa de programação da Culturgest?
Ainda faltarão muitos? Quantos são eles ao todo, os manos? Cruzes canhoto.
Saramago esse só há um que se saiba. E se pensam que com esta polémica sobre a democracia e o voto em branco, preto ou amarelo me vão obrigar a ler o “Ensaio Sobre a Lucidez”, estão muito enganados. Eu só leio um romance se ele me conquista. Não pelo facto do seu autor ser um Nobel ou pela sua mensagem política. Folheei este e… não me seduziu. Portanto, não o vou ler e… adiante.
Passando aos divorciados.
Eram tão raros e de repente… começaram a multiplicar-se.
Onde quer que vá tropeço num divorciado.
E, pasme-se, não são daqueles arruinados, desempregados, bêbados ou drogados que as mulheres se viram obrigadas a por fora de casa após anos de esforço a tentar mudar o que não tem mudança.
São… pessoas de bem, homens independentes, preocupados em construir o seu ninho e a sua vida, sós ou acompanhados, com equilíbrio e autonomia.
Viva! Os homens estão a crescer.
Que discurso horrivelmente maternalista.
E acabando… nos russos. Eles estão em todo o lado e eu não consigo vê-los. Estiveram em Lisboa e no Porto com os Cisnes, a 60 Euros, com a geral esgotada. E vão estar na Guarda, hoje, com Rachmaninov e o Cáucaso, a 2E o bilhete e eu não posso ir ouvi-los porque estou de serviço. Quem disse que o mundo era justo?
Por: Maria Massena


