Lisboa 15 de setembro. Auditório da reitoria da Universidade Nova. Intervenção do 1º ministro na sessão comemorativa dos 35 anos do Serviço Nacional de Saúde.
Pela primeira vez ao longo destes 3 anos ouvi uma verdade e também, pela primeira vez, estive inteiramente de acordo com Pedro Passos Coelho «O SNS sofreu a maior ameaça de toda a sua história» para discordar completamente com o resto do discurso quando, cinicamente, atribui à saúde crescimento positivo, empregando, para tanto, argumentos de uma hipocrisia social, sem limites, de quem vê as eleições aproximarem-se. António Arnaut afirma: «O que tem valido ao SNS é a mãe, a Constituição, sem a qual já não existia».
É ou não verdade que as famílias portuguesas pagam 34% da despesa total do país em saúde. Que os grupos BES, Mello, Lusíadas e Trofa detêm 60 unidades, em parcerias público/privadas, controlando mais de 80% da saúde em Portugal e gerem quase metade das unidades de saúde?
Segundo o insuspeito INE, os atendimentos, consultas, exames complementares de diagnósticos e atendimentos diminuíram significativamente nos hospitais públicos com aumento acentuado nos estabelecimentos privados. A redução de camas foi uma realidade, menos 3.000 no público; aumentos de 1.500 no privado. E isto tem a ver com a opção política do atual governo que transfere mil milhões de euros para os grandes grupos através das célebres PPP, garantindo, só ao BES, metade das suas receitas, seguindo o princípio liberalóide de privatizar tudo o que dá lucro, enquanto processos mais difíceis são assegurados pelo Estado, perdendo dinheiro duas vezes e isto tudo à custa dos contribuintes e da sua saúde. Para exemplificar isto basta recorrer àquela máxima do ex-ministro Carlos Macedo: «Quem quer saúde, paga-a».
Toda a gente já percebeu o que pretende Passos e Cª: O acesso à saúde não é universal, como defende o artº 64º da nossa Constituição. Tem em conta as condições económicas de cada um, mesmo percebendo que o serviço público tem necessariamente de existir muito desvalorizado e com serviços considerados mínimos (mais de 5 milhões isentos de taxas moderadoras, a grande maioria por insuficiência económica), seguindo o princípio de um serviço a duas velocidades, dando-se conta, do outro lado, da existência de entidades privadas, seguros e afins, financiadas com o nosso dinheiro, reduzindo desta forma a capacidade do SNS, serviço este que deveria ser o verdadeiro promotor da saúde em Portugal e não o fomentador-mor de doenças neste apoio descarado e declarado a todos aqueles mercantilistas/gananciosos que querem acabar com a saúde para todos.
Bonito de se ver é o primeiro-ministro dizer que se enganou ao longo destes três anos, seguindo-se agora os ministros, num rosário de desculpas de quem percebe que o tempo não para, as eleições estão a chegar (o rebuçadito poderá vir já no próximo orçamento), o poder continua a deslumbrar e a alimentar boy’s e girl’s nessa passerelle de vaidades, iluminada pelas luzes da ribalta, nesse fosso de orquestra enorme e desafinada, por azuis e laranjas, onde desfila gente, com projeto previamente definido para os grandes e poderosos, percebendo-se facilmente que a humildade é estritamente eleitoral e passa pelo chico-espertismo da exploração da memória curta, deixando-lhes apenas por conselho que façam um apelo a Balsemão e à SIC no sentido de reeditarem aquele medíocre programa televisivo do final dos anos 90 “Perdoa-me”. É que por menos, mas mesmo por muito menos, ao outro Pedro colocaram-lhe os patins e puseram-no no olho da rua. (Será que na semana passada veio à Guarda jantar somente pelo jantar, pela rentrée, ou há que considerar que vai haver eleições presidenciais em 2016?).
Com as guerras intestinas do PS (falta menos de uma semana para percebermos o que dali sai e os episódios da telenovela que virá a seguir), não é bonito estar a pedir a cabeça deste ou daquele ministro. Com esta política, com estes denunciados pedidos de desculpa, com estes enganos, com estes prantos, choros de crocodilo e lamentos dignos de uma qualquer carpideira de trazer por casa, o caminho tem sentido obrigatório e é necessariamente único. Sem qualquer apelo ou agravo…
Por: Albino Bárbara


