Subversivo, muito subversivo e de uma genialidade transbordante. Assim é Tom Zé, o fenómeno musical brasileiro do momento que, no final dos anos 80, esteve a dois passos de seguir a carreira de gasolineiro porque a sua música era incompreendida no seu país. Esse tempo já lá vai e o compositor está amanhã na Guarda, no âmbito de uma digressão nacional, para promover o seu último trabalho. O irónico “Estudando o Pagode – Na Opereta Segregamulher e Amor” é considerado como um dos melhores álbuns da música brasileira contemporânea. O concerto no grande auditório do TMG abre o “Festival do Outro: Brasil – Aproximações. Diferenças. Cumplicidades”, que decorre em Julho.
O irreverente Tom Zé tem 69 anos e é baiano. Iniciou a sua carreira como membro do movimento tropicalista, ao lado de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia. Com eles mudou a música brasileira, ao misturar elementos nacionais e estrangeiros, e participou no histórico álbum “Tropicália ou Panis et Circencis” (1968). Mas a sua tendência subversiva afastou-o da ribalta, tendo ficado 16 anos sem gravar um disco. Uma travessia do deserto que quase o levou a optar por trabalhar numas bombas de gasolina, não fosse David Byrne descobri-lo e resgatá-lo do abismo. O músico e editor de “world music” acabou por relançar toda a sua obra, mas para o mundo. Fora do Brasil, o sucesso de Tom Zé foi imediato, a tal ponto que passou a ser venerado por nomes como os Tortoise ou Mogway. A “Rolling Stone” considerou-o mesmo um dos melhores artistas dos anos 90, enquanto a revista francesa de informação geral “Le Nouvel Observateur” chamou-o de “Zenial”. Mas esta idolatria repentina não se ficou por aqui e até o polémico realizador Michael Moore escolheu um tema de Tom Zé, “Companheiro Bush”, para integrar a banda sonora do documentário não menos controverso “Fahrenheit 9/11”. O presidente norte-americano foi de resto a sua principal musa inspiradora nos últimos anos.
Mas o compositor continua o seu caminho exuberante. Tom Zé é o rebelde das mil causas. As letras das suas canções estão impregnadas de humor e sentido crítico apurado. Ele diz que «a sociedade não vive sem rebeldia» e não se faz rogado para contribuir com o seu quinhão. Acérrimo defensor das mulheres e crítico do domínio dos países ricos sobre os países pobres, Tom Zé faz das suas canções autênticos manifestos políticos e hinos à humanidade. Assim é com “Estudando o Pagode – Na Opereta Segregamulher e Amor”, editado este ano, que mais não é que uma opereta criada em torno dos aparentemente imperceptíveis abusos masculinos sobre o universo feminino. No decorrer do disco, Tom Zé explana, numa sátira exclusiva, a sua visão sobre a segregação de sexos existentes no Brasil e no mundo. Mas, ao recorrer ao pagode, Tom Zé recoloca em alta um género musical ligado à classe mais pobre, que entretanto se tornou universal enquanto estilo brasileiro.
Luis Martins



