Os dias frios e gelados não convidam à escrita, aliás convidam a pouca coisa. Empurram-nos para casa em busca da lareira envernizada e apagada, substituída pela caldeira, essa maravilha da técnica do final do século XIX em formato melhorado e condensado. Sentado na cadeira impaciento-me. As palavras divagam e flutuam ao sabor do vento e das marés. Não se misturam, repelem-se como os pólos opostos. A economia está uma porcaria, o final do século XX formatou um misto de gestores “Xico-espertos”, bem licenciados e formados, com gostos caros e com grande capacidade de destruir o dinheiro dos outros, conspirando e delineando estratégias nas bolsas de todo o mundo, pagando almoços ou jantares aos que rodeiam aqueles que pensam que mandam no mundo, viajando para todos os cantos, mesmo para onde todos pensamos que ninguém viaja, financiando eventos caros, daqueles que todos gostamos de ver. Na realidade, a nova economia foi construída, ora em areia movediça ora em terreno pantanoso, tendo sempre como objectivo a especulação e o dinheiro fácil, o que se tornou no seu fim. O real valor da coisa desapareceu.
Uma economia baseada na Bolsa dá a oportunidade a que todos se sintam donos nem que seja do cabo que todos os dias puxa o elevador do Senhor Director-Geral para o último andar. Mas o problema é que não queremos ser donos do cabo, o que queremos mesmo é que o cabo ascenda rapidamente a general. Investir 100 e retirar rapidamente 500 é o que nos interessa. Como aconteceu este milagre pouco importa. Mas quando o Director-Geral desce num elevador que entretanto perdeu o cabo, provoca um estrondo, e tudo se desmorona aos nossos olhos. Então perguntamos onde estavam os reguladores e os inspectores, porque nos parecia que eles estavam lá, pois e se calhar até estariam, coitados, não conseguiram foi acompanhar a velocidade com que estes cérebros “Xicos espertos” laboram.
Agora nós portuguesinhos, já estamos quase em recessão, porque como em tudo tínhamos que ser dos últimos, isto de sermos pobrezinhos tem destas coisas, até para entrarmos em recessão vamos devagarinho. Até poderemos não entrar. Vamos ver o que nos diz o Sr. Socrates e o Sr. Teixeira quando acabar o trimestre. Já falta pouco. Isto do frio tem destas coisas, os temas não fluem e o pensamento como que congela.
Para dinamizar a nossa economia e pôr a circular o dinheiro, que os Bancos pediram emprestado (com o aval dos nossos miseráveis pertences), o Estado dando ares de pessoa de bem, endividou as Câmaras para pagar as dívidas às pequenas empresas, que por sua vez vão pagar a quem devem, em alguns casos à banca. Circuito engraçado este, mas menos confuso se ler segunda vez. Foi preciso que a economia chegasse onde chegou para que o Estado admitisse que tem dívidas que já devia ter pago há muito tempo. Sendo assim o Estado primeiro obstrui a economia e depois arma-se em bom samaritano tentando pô-la de novo em movimento, seja pagando as dividas, seja com o investimento público (que depois lá ficará a dever de novo). Entretanto, a Associação de Municípios que é assim como que um segundo governo dentro do Estado, renunciou a 555 milhões de euros de taxas e impostos para ajudar as famílias em tempos de crise, é muito dinheiro para quem vai pedir dinheiro emprestado para pagar as dívidas. Agora sim é que fico confuso. O frio torna-nos depressivos, as árvores perdem as folhas e ficamos nostálgicos.
A Grécia mantém-se quente há mais de uma semana. Reformas sociais a aumentar o fosso entre os ricos e pobres, corrupção a envolver ministros, escândalos financeiros, crise económica, subúrbios, marginalidade e um estudante abatido pela polícia a surgir como rastilho. Só em Atenas destruíram mais de 500 lojas com prejuízos a ultrapassarem os 200 milhões de euros. Este tipo de contestação está a tornar-se recorrente em países europeus e a credibilidade dos que nos guiam (políticos e gestores financeiros) afunda-se tal como o Titanic nas águas geladas. Mais do que irmos a votos para o ano há que pensar o que queremos realmente para a nossa sociedade e aí a pergunta impõe-se e a resposta também na caneta do poeta “…só sei que não vou por aí”.
O petróleo continua a descer. Estava abaixo dos 25 dólares o barril em Setembro de 2002, mas em Agosto de 2005 já tinha subido para 60 dólares, chegando a transaccionar-se a mais de 80 dólares em Setembro de 2007 e a atingir o valor máximo de 120 dólares no Verão deste ano, mas agora está abaixo dos 50 dólares, contudo em 1980 o preço era francamente mais elevado, rondando os 90 dólares. Alguém se recorda quanto pagava pela gasolina há 28 anos? Mesmo que não se recorde tem a certeza que agora não paga metade do valor que pagou então.
Concluímos, com facilidade, que o preço do barril nada tem a ver com o preço real dos combustíveis. Depois de atingir o preço mais elevado desde sempre há uns meses atrás, agora o preço baixa, porque na realidade o consumo desceu e aqui também entra a lei da oferta e da procura, mas as petrolíferas ainda querem continuar a aforrar e o Estado também. O regulador fecha os olhos e o consumidor reclama em surdina, porque está frio e é Natal.
Por: João Santiago Correia


