Os problemas do interior voltaram a estar na ordem do dia. Numa terra em que, como disse Miguel Unamuno, toda a gente tem frio, até as pedras, o assunto é recorrente, sobretudo quando os políticos locais sentem que precisam de um tema para aquecerem as almas e reganharem visibilidade e novas legitimações.
A receita é, basicamente, a mesma de sempre: atirar dinheiro para cima do problema, a ver se ele desaparece. Normalmente, o que desaparece é o dinheiro, mas os resultados não mudam. Basta olhar para a novela do Hotel Turismo para percebermos aonde quero chegar.
Numa cidade em que se encerrou a pousada do Instituto da Juventude e em que a residência dos estudantes a cargo da DGEst (Direcção-Geral dos Estabelecimentos Escolares da Região Centro) foi funcionando com um reduzido número de alunos, o presidente do Politécnico da Guarda queixou-se um dia da falta de alojamento para os alunos, sobretudo os de ERASMUS. Este é o melhor exemplo daquilo em que se transformou o interior.
Os mesmos que hoje anunciam soluções para os problemas são exatamente os mesmos que um dia estiveram ao lado de governos e de medidas que ajudaram a tramar o interior. Lembram-se das portagens? Aonde estava nesse dia, só para falarmos num nome com responsabilidades daqui até ao outro lado do mundo, Álvaro Amaro? O que fizeram essas pessoas, de concreto, para travarem o nosso deslizamento para o abismo? A verdade é que se especializaram em fundos europeus, projetos de financiamento e ajustes diretos, e é por essa razão que propõem modelos de combate à interioridade centrados nesse tipo de metodologias.
O objetivo não é salvarem o interior, é salvarem-se a si mesmos, pois não sabem viver de outra forma. É a subsídio-dependência de que precisam como pão para a boca, a captação de recursos de terceiros para manter em funcionamento uma economia e uma sociedade que reclama o direito divino a viver aqui, mas sustentada por terceiros.
E é aqui que está o busílis da questão: do que o interior precisa é de pessoas que se especializem em contar consigo próprias, que inventem soluções sustentáveis para a sua vida. A melhor forma de se ajudar uma região desfavorecida começa por estratégias que não ajudem a fazer partir as suas gentes. Mais do que dinheiro, é necessária ação política que impeça o encerramento do mais diverso tipo de serviços públicos e de empresas.
O interior precisa de menos paternalismo de quem é de fora e de menos choraminguice de quem ficou. De menos bombeiros que ateiem fogos que depois dizem querer apagar. Precisa de pessoas que saibam e, sobretudo, que queiram fazer empresas competitivas que não tenham medo de vender em qualquer parte do mundo. Não de apoios a modos de produção e de gestão que, objetivamente, tenham sido condenados por contextos internacionais que não controlamos e que apenas prolongam uma agonia económica que se justifica com mitos sobre o passado e sobre as injustiças a que o interior foi sujeito.
Para que isso seja viável, precisa de políticos que conheçam a realidade social e económica e que nos momentos difíceis, quando tiverem de fazer opções, privilegiem com desapego a coerência e desprezem o partidarismo e a propaganda dos imediatismos de conveniência. Não precisa, certamente, de estrangeirados como Álvaro Amaro ou de séquitos de adoradores que dependam de todos aqueles esquemas que mencionei.
A história do interior está cheia de sebastianismos voluntaristas, com as consequências que todos conhecemos. Mas nem o interior é uma espécie de Alcácer-Quibir, nem Álvaro Amaro o iniciador de uma nova dinastia Filipina. E mesmo que fosse, já todos vimos aonde isso conduz. Nem nós somos a plebe, nem os mordomos da festa dão para reis…
Por: Jorge Noutel
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