Por uma coincidência cósmica só explicável através da numerologia ou de qualquer outra explicação idiota, o Observatório de Ornitorrincos chega ao número 100 na mesma semana que o Diário de Notícias atingiu a edição 50.000. Na verdade, esta simultaneidade é apenas um dos entes que o clássico diário lisboeta tem em comum com esta coluna. O outro é a preposição “de” a separar dois substantivos no nome.
100 artigos seguidos, sem interrupção para férias ou limpar a casa, pode parecer muito para uns e um exagero para outros. Alguns leitores d’O Interior tinham até passado melhor sem nenhum Observatório publicado, mas isso são apenas os dois ou três que alguma vez o leram. Esta celebração acaba por ser como comemorar o aniversário sozinho. Este é o centésimo artigo desta série, mas para quem o está a ler é apenas um como os outros todos: grande, aborrecido e sem nenhum interesse particular.
Qual é afinal a importância do número 100? A explicação clássica de que é um número redondo não é aceitável. Se bem que os dois zeros são ovais, o um é excessivamente horizontal para que 100 seja um número redondo. 99, por exemplo, é mais redondo que 100. 69 consegue ser ainda mais redondo, mas essas são também já outras curvas.
Fazer 100 anos, correr 100 metros ou ler 100 Observatórios de Ornitorrincos são feitos a considerar. Até podem ser considerados parvos, porque qualquer um deles dá uma enorme trabalheira e não é que tragam nada de novo. E repare-se como refiro a canseira de ler os 100 artigos e não a de os escrever. A criação destes textos e o sexo são, para mim, actos semelhantes. Exigem esforço, dão algum prazer, não me pagam e habitualmente é um acto solitário com auxílio de recursos existentes na web.
Voltando ao número 100, veja-se que Gabriel Garcia Marquez escreveu Cem Anos de Solidão e não Duzentos e Quarenta e Cinco ou Setenta e Oito Anos de Solidão. 100 tem mais impacto. Permite a brincadeira intemporal entre o “cem” e o “sem”, como em “eu e mais cem gajas” e “eu é mais sem gajas”. Um centenário é como um cinquentenário mas a dobrar. Aliás, isto não é propriamente um centenário, porque a coluna não faz anos, faz cem vezes. É um cenvezário. 100 anos é um século, 100 artigos destes são uma seca.
Por: Nuno Amaral Jerónimo


