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Nivoso

1. Na madrugada do dia 20, no Hospital de S. José, o cidadão David Duarte sucumbiu a um aneurisma. Tanto quanto se sabe, a morte resultou da ausência de uma esquipa de neurocirurgia durante o fim de semana. Já muito se disse e escreveu sobre o tema. Que é obviamente chocante e merecedor de uma investigação exaustiva. Mas é de outra coisa, embora relacionada, que venho falar. Numa notícia do episódio, referia-se o no título “jovem de 29 anos”. O que isto significa? Há 40 anos, um “jovem” desta idade era um homem feito, possivelmente veterano de uma guerra, com uma família constituída e sem tempo para modas. Na Idade Média, a esperança de vida de um europeu era de 35 anos. Montaigne retirou-se para o torreão da sua propriedade na Gasconha para escrever os “Ensaios” quando tinha 38 anos, pois já se considerava “velho” qb. Hoje vive-se numa cápsula eterna de experimentação. Que é, sobretudo, uma espécie de condescendência negociada com a morte.

2. Num destes dias, no ginásio, percebi que, afinal, a igualdade entre os sexos é uma treta. Pura bazófia! A Camille Paglia é que tem razão! No salão havia uma aula de zumba. Só mulherio, imitando um rapaz colorido em cima do palanque. As frenéticas alunas, claro, fazendo contas à celulite, de fronte para o espelho. Do outro lado, na sala dos aparelhos de fitness e máquinas de musculação, a música era outra. Aí, dominavam os homens. Muito estrogéneo, conversa máscula e cada um por si. Tudo, é claro, de fronte para o espelho…

3. Já não há humilhados e ofendidos como antigamente. Sobram as corporações à sombra do Estado e a narrativa heróica. Espaço para líderes narcisicos e reclamando o primado do Verbo, amparado em adjectivos guerreiros de circunstância. Eis ao que se resume a esquerda contemporânea…

4. Uma das mais opressiva manifestações de egoísmo é alguém colocar-se no centro das atenções, obrigando os outros a viverem os seus problemas como se fossem deles. E tudo isto sem contenção, sem parcimónia, sem reserva. Como se fosse uma obrigação da assistência escutar uma litania interminável do queixume e da subtil vaidade. Comover-se com um recitativo que nunca chega a ser coro. Alimentar a ilusão de uma dadivosa solidariedade. A consequência mais óbvia desta encenação egotista é a descredibilização das circunstâncias do orador. O esvaziamento do seu relato. Que já ninguém leva a sério. Que já ninguém lembra no minuto seguinte.

5. Como eu percebo o Pessoa do “Poema em linha recta”!… A fragilidade escondida dos super-heróis com que nos deparamos no quotidiano é tão real como a fragilidade que se mostra, sem máscaras e sem medo. O problema está em que a força da que está à vista põe a nú aquela que se varre cuidadosamente para debaixo do tapete. E quanto mais se tapa, mais se odeia quem expõe essa fraude à luz do dia. Sem perceberem a dimensão da dádiva que esses anjos delicados lhes sussurram. Tempos complicados os nossos. Quem mostra lutar pela empatia contra a vaidade é encarado como um bizarro…

6. Platter e Platini foram banidos do futebol, por decisão judicial. Gosto da palavra “banimento”. Vai mais além da “exclusão”, onde persiste alguma cerimónia. Não implica um confinamento geográfico, como no desterro, ou um juízo moral, como na proscrição, ou uma morte em vida, como no ostracismo. É imposto e não fruto da vontade, como na abdicação. Em suma, um acto de justiça, que se espera não se ficar pelos bodes expiatórios…

Por: António Godinho Gil

* O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

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