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Natureza humana

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A natureza humana e suas idiossincrasias inclui a maior das vaidades. A eternização da nossa passagem pelo mundo demonstrando à saciedade que fomos ricos ou poderosos não olha à pobreza alheia, não concerne à fome e doença. Atingir o que ninguém conseguiu, realizar algo “imortal” como as pirâmides, como a esfinge, como a torre Eiffel, isso está na mente de todos os que passaram pela construção dos desígnios dos homens. Elegemos alguns, fomos obrigados a sobreviver sob ditaduras de outros, fomos mal tratados por vencedores de guerras, fomos enviados para colossais erros de estratégia ou de ideologia por outros. Acreditámos nuns, mistificámos outros, adorámos alguns. Todos na sua essência acabaram por sonhar com a sua assinatura da obra física. Todos quiseram deixar a sua catedral, ou o seu castelo, ou a sua forma em estátua. Estádios de futebol onde não se joga à bola, bibliotecas onde ninguém lê, faustosos palácios construídos por famintos. Hoje apetecia-me nomear os que mudaram os nossos destinos sem obras, sem construções, sem prédios e sem ruas. Chegam-me à memória figuras ímpares, conceptualmente distintas, com a força de terramotos mas que mudaram tudo à sua volta sem erguer um único monumento. Recordo Mahatma Gandhi, recordo Nelson Mandela, recordo na outra face do processo de revolucionar, mas sem edificar, o Aiatolá Sayyid Ruhollah Musavi Khomeini, recordo o exemplo máximo do serviço que é ser capaz de abdicar Joseph Aloisius Ratzinger, o Papa Emérito, que deste modo permite a novidade que é Francisco.

Por: Diogo Cabrita

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