Em princípio, quando lerem estas palavras já se saberá quem será o próximo (ou a próxima) Presidente do Estados Unidos. Por ora, enquanto as escrevo apenas sei que os cidadãos norte-americanos estão a acorrer às urnas, que começam por abrir na costa Leste e, progressivamente, acompanham o Sol e atravessam o interior dos Estados Unidos, pelo Midwest e pelo South, até alcançar o Pacífico, pelo West e pelo NorthWest.
Não espero que Trump ganhe. E ainda bem. Não porque seja, como por vezes foi dito, comparável ao nazismo ou mesmo ao fascismo. Talvez seja justa a comparação, mas talvez seja leviana e em ambos os casos há razões atendíveis. Mas é preciso muito menos para esperar que Trump não ganhe as eleições americanas. A conversa de balneário com que brindou todas as mulheres da América e todos os cidadãos do mundo não é um acidente de percurso, não é verdadeiramente uma conversa de balneário como se houvesse outra conversa, de campo propriamente dito. No caso de Trump, ela é o essencial de uma postura política. É assim com as mulheres, como é assim com os hispânicos, com os imigrantes, com os islâmicos.
Ora, esta postura que faz da conversa de balneário o centro da política é profundamente destrutiva. Na realidade, é o mesmo que desprezar a condição mais básica que possibilita a própria política e o pluralismo: a civilidade. Não o civismo, que se prende com regras de boa educação, mas a civilidade, que se prende com regras de convivência num espaço comum civil.
Clinton, por seu turno, não é Obama. Mas seguramente é muito mais Obama do que Trump e só podemos esperar que, no plano interno, não comprometa os passos tímidos que o ainda Presidente Barack Obama soube dar em termos de direitos sociais, pondo travão às pressões neoliberais. Os seus desafios externos serão muitos e, oxalá, saiba melhor do que no passado evitar soluções que passem pela força. A Síria, o Médio Oriente, o terrorismo, o fundamentalismo, mas também um neoimperialismo russo exigem inteligência e seguramente muita articulação com as Nações Unidas, hoje lideradas por Guterres.
Se tudo correr como previsto, no momento em que se leem estas linhas, Clinton, ou Hillary Clinton, será a próxima Presidente. E será a primeira mulher Presidente dos Estados Unidos. Boa oportunidade para corrigir maus hábitos do passado, como o de tratar os homens pelo apelido e as mulheres pelo nome próprio. Não deverá ser a Presidente Hillary, como Trump não seria Donald ou o anterior Clinton Presidente Bill. Será sim a Presidente Hillary Clinton. Oxalá a razoabilidade tenha vingado. O mundo não merecia ficar pior. Não ficou, pois não?
Por: André Barata


