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Mudar de povo

Será possível culpar exclusivamente o Governo por não cumprir o que promete? Segundo parece, é possível e até inevitável: dos 150 mil empregos à não subida de impostos, sem esquecer a isenção de portagens nas Scut e o fatal referendo à “Europa”, o engenheiro foi rasgando airosamente o que andou a prometer aos portugueses. Sou insuspeito de simpatias socráticas – mas, no caso em apreço, não peço a cabeça do primeiro-ministro. Se existe um verdadeiro responsável pela desvergonha corrente, ele dá pelo nome de povo português. Basta recuar a 2005 e reler, com a seriedade possível, as promessas eleitorais com que o PS pretendia regressar ao poder. Exageradas? Digamos apenas isto: em 2005, o eng. Sócrates, se quisesse, até podia ter prometido 72 virgens a cada macho lusitano; o povo, rendido e grato, estava disposto a imolar-se por ele. Depois de Santana, viria o milagre – e Sócrates só podia mesmo tirar 150 mil empregos da cartola, pôr a economia portuguesa a crescer sem freio e, em gesto de intocável brio nacional, fazer peito aos seus pares europeus e referendar a “constituição”. Verdade que, nesses tempos áureos, alguns incréus ainda se deram ao trabalho de somar 2 mais 2 e contemplar a fantasia em colunas ou blogues. Mas os portugueses acreditavam no que queriam acreditar e, três anos depois, a julgar pelas sondagens da praxe, continuam a acreditar, o que sem dúvida define a sanidade da espécie. Sobra a questão, nunca devidamente apreciada, de saber se em 2009 devemos mudar de governo ou, então, mudar de povo. Eu acho que devemos mudar de povo.

Mundos perfeitos

Em 1999, o historiador Robert Proctor publicou um livro que merecia tradução entre nós. Intitula-se “The Nazi War on Câncer” e Proctor pretende mostrar como a Alemanha nazi foi pioneira em certas políticas para a saúde que hoje se instalaram entre nós. E, a título de exemplo, Proctor investiga as campanhas antitabágicas do Reich, destinadas a apresentar o fumador como um ser vicioso e infecto, capaz de por em risco a pureza da utopia racial alemã. Utopia: eis a palavra. Porque aquilo que distingue os totalitarismos do século XX é a crença basilar de que é possível produzir um homem novo e perfeito. E um homem novo e perfeito não fuma, não bebe, não come o que não deve. E, já agora, não é judeu, nem cigano, nem homossexual, nem polaco. A natureza totalitária destas ideologias redentoras começa na subjugação do indivíduo a um ideal de perfeição.

É por isso estranho que algumas sumidades tenham aparecido recentemente a denunciar a forma como as palavras “fascismo” e “totalitarismo” são usadas para combater o antitabagismo corrente. As sumidades não apreciam o exercício e pedem respeito pelas palavras. Como é natural, as sumidades respeitam as palavras mas não entendem o que elas encerram no seu significado mais profundo. E acreditam que “fascismo” e “totalitarismo” designam coisas “sérias” e não, como sucede, a aplicação de um ideal higiénico sobre a raça humana. Ler Robert Proctor talvez desfizesse tanta seriedade. Mas o mais provável era as nossas sumidades desatarem a insultar o historiador.

Por: João Pereira Coutinho

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