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Memórias com 105 anos de vida

Maria dos Anjos nasceu na Guarda a 14 de março de 1906

As suas histórias chegam ao ritmo de uma memória que agora completa 105 anos de vida. Maria dos Anjos festejou na segunda-feira, na Guarda, mais um aniversário e os “mimos” de filhos, netos e bisnetos parecem ser o segredo da sua longevidade.

É com a ajuda da família que a centenária vai lembrando tudo o que ficou para trás. Para exercitar a memória, vão questionando: «Quantos netos tem e como se chamam?». Há dias em que as respostas saem prontas e noutros é preciso saber esperar e dar uma ajuda. «Três filhos, seis netos, oito bisnetos», acaba por responder. Há dias em que os nomes já se confundem, mas noutros Maria dos Anjos recorda tudo: os dias da semana, os meses e, até mesmo, as horas a que os filhos nasceram. Por entre o vaivém de lembranças, não tem receio de admitir: «A idade tudo traz e tudo leva». Nasceu numa Guarda muito «diferente». E ao olhar para a cidade de antigamente, diz que neste tempo «tudo é melhor». «Antes trabalhei, agora descanso», diz a rir. Mas volta e meia lança a pergunta: «Por que é que o tempo não volta para trás?». Quando era jovem, eram as lides da casa, as rendas, as idas à igreja e a educação dos filhos que a entretinham.

Embora hoje viva na casa da filha, Maria dos Anjos permanece no mesmo lugar que a viu nascer, a 14 de Março de 1906, num edifício perto do mercado municipal de S. Miguel, na Guarda-Gare. É a sua cidade há 105 anos e de cá nunca saiu. «Só para passear», adianta. Com a ajuda de noras e filha, a aniversariante viaja até aos lugares que já conheceu: «O meu neto Jorge levou-me a Fátima e ainda hei-de lá voltar», garante. Enviuvou vai fazer 12 anos, mas ainda viveu o suficiente para completar 73 anos de casada. Com uma vida plena de gente, a solidão é sentimento ao qual jamais se conseguirá apegar: «Não gosto de estar sozinha», confessa. É por isso que o burburinho, as conversas, os sucessivos toques à campainha e as visitas na sua festa de aniversário a enchem de alegria: «Estou muito satisfeita porque todos me vêm ver e eu gosto é de estar aqui a conversar com toda a gente», explica.

Ainda não sabe, mas a festa maior será no domingo, com a vinda dos netos que estão mais longe, em Lisboa e noutras cidades do país. É nos “miminhos” da família que Maria dos Anjos vai depositando a fé de continuar a celebrar mais anos de vida. «É que sou muito bem tratada», refere, acrescentando que assim «é bom chegar a esta idade». Filhos, noras e netos partilham o sentimento. «Nem sempre a posso ver, mas tenho muito gosto em estar com ela e vir aqui. Fazemos-lhe sempre esta festa e nos outros dias tem sempre alguém por perto», confessa a nora Carmelina Godinho. Para o filho, este será sempre um dia feliz. «O que me deixa mais satisfeito é ela ter esta idade mas manter este raciocínio e esta memória, embora com pequenas falhas, claro», congratula-se António Pires Godinho. Apesar do peso dos anos, «ela vive muito estas coisas», garante ainda o filho.

Catarina Pinto Maria dos Anjos vive em S. Miguel na Guarda

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