Haja memória
Fui relatora da Comissão Parlamentar de Inquérito aos Estaleiros Navais de Viana do Castelo e recordo-me bem daquela empresa pública acumular, décadas a fio, milhões de euros de prejuízos. Recordo-me que a solução encontrada, pelo então ministro da Defesa, José Pedro Aguiar Branco, para pôr termo àquela “sangria”, passou pela subconcessão dos estaleiros à West Sea. Recordo-me que logo em julho desse ano o consórcio liderado pela Martifer ganhou o contrato para a construção dos dois NPO, depois da Marinha ter sido autorizada a adquirir os dois navios-patrulha. Recordo-me de, logo nesta altura, estarem ali a operar mais de 800 trabalhadores e da garantia destes postos de trabalho. Recordo-me da vergonhosa campanha mediática montada por socialistas, bloquistas e comunistas. Perdi a conta ao número de manifestações, protestos, acusações e ameaças a todos os que defendiam aquela solução. Recordo-me do socialista presidente da Câmara de Viana do Castelo ter depositado uma coroa de flores, numa cerimónia solene em jeito de homenagem fúnebre à construção naval naquela cidade.
Em apenas quatro anos, a empresa pública altamente deficitária e que vivia de subsídios estatais deu lugar a uma empresa rentável. Os mesmos que condenaram desavergonhadamente a solução encontrada estão agora na primeira linha da inauguração do navio construído naqueles estaleiros, sem uma palavra de arrependimento, sem um pedido de desculpas, num esforço patético de se apropriarem de um feito contra o qual se insurgiram.
A ver o comboio passar
Na mesma semana em que o governo anunciava o maior investimento na ferrovia, a CP eliminou o primeiro Alfa Pendular da manhã e o corte de comboios na hora de ponta na linha de Cascais e Sintra. A realidade pode de facto ser uma coisa muito chata.
E porque as grandes cidades se incomodaram, lá surgem finalmente notícias sobre o estado lastimoso de comboios velhos e avariados que circulam pelo país fora. Só me espanta a letargia da notícia. Vê-se que há pouca gente com responsabilidades neste país a viajar utilizando este meio de transporte público.
Afirmo hoje o que há anos venho denunciando/reclamando sobre o dia-a-dia da nossa Linha da Beira Alta, porque sou utilizadora frequente. Acrescentaria que esta linha está cheia de mato à sua volta (não se procedeu à limpeza exigível a qualquer um dos particulares por todo o país) e com as estruturas envolventes em absoluto abandono. A falta de limpeza/ higiene nas estações é gritante, bem como dentro das carruagens e demais utilitários, que estão de igual modo em estado indescritível!!
E sobre… a Saúde?
Enquanto a dívida vencida do SNS (+ 90 dias) atinge novos valores recordes ao ter subido de 853 milhões de euros para 1.160 milhões, um aumento de 36%, ou os pagamentos em atraso dos hospitais EPE do SNS registam nova subida: 451 milhões, em dezembro de 2015, para 705 milhões, em maio de 2018, um aumento de 56,3%, não nos surpreende que o Tribunal de Contas tenha vindo considerar que «a situação financeira do SNS é extraordinariamente débil».
Mas se dúvidas houvesse, veio agora o “Relatório Anual sobre o Acesso a Cuidados de Saúde nos Estabelecimentos do SNS e Entidades Convencionadas – ano 2017”, dizer que a acessibilidade dos doentes a cirurgias registou uma diminuição, como o demonstram os exemplos seguintes: o tempo médio de espera dos doentes para cirurgia aumentou; a lista de espera para cirurgia aumentou para 231.250 inscritos, em 2017; o número de camas hospitalares no SNS sofreu uma redução; a percentagem de consultas hospitalares realizadas dentro dos Tempos Máximos de Resposta Garantidos (TMRG) diminuiu; a mediana do tempo até à realização da primeira consulta hospitalar aumentou.
Estes dados e outros, como os elevados tempos de espera para consultas médicas, são uma triste realidade que atinge a maioria dos hospitais do SNS, verificando-se mesmo situações absolutamente inaceitáveis, como: Oftalmologia: 1.046 dias no Hospital de Chaves; Ortopedia: 886 dias no Hospital de Lamego e 581 dias no Hospital da Guarda; ou Neurocirurgia: 560 dias no Hospital de Faro.
E como se tudo isto não fosse “desgraça absoluta” acresce que é chegado “o tempo” da implementação do horário das 35 horas, onde, infelizmente, vem também o mesmo relatório confirmar que o aumento nominal dos profissionais entretanto contratados, apenas terá permitido colmatar o efeito da alteração à legislação laboral, não tendo tido reflexo na maior disponibilidade destes profissionais ao serviço das pessoas. E, isto mesmo, sentem os utentes quando nos serviços de saúde a que acorrem cada vez mais camas nas várias especialidades estão encerradas.
Por: Ângela Guerra
* Deputada do PSD na Assembleia da República eleita pelo círculo da Guarda e presidente da Assembleia Municipal de Pinhel


