Pela primeira vez venho falar de um projecto português aqui n’O Interior. E logo um dos melhores projectos portugueses no activo: os Linda Martini são possivelmente a banda nacional mais importante dos últimos anos. A sua importância quase que pode, e deve ser, comparada à dos Pop Dell’Arte, Mão Morta, Tédio Boys e Ornatos Violeta. De facto, são tão importantes que também se deve dizer que o álbum de estreia destes alfacinhas, mais conhecido por “Olhos de Mongol”, é talvez o melhor dos últimos 10 anos musicais em Portugal. Mas muita coisa mudou desde 2006, ano de estreia em longas durações (LPS) dos Linda Martini. Entretanto já lançaram dois EP’s e outros dois LP’s. Hoje falamos de um desses LP’s, o último, conhecido por “Turbo Lento”.
Os Linda Martini cresceram mas não se tornaram mais velhos. Antes pelo contrário, há mais poder, mais vontade, mais revolta nas músicas. O “shoegazing” continua a estar presente, as letras foram encolhendo enquanto ganham qualidade e a experiência adquirida ao longo destes 10 anos de carreira deu-lhes uma construção instrumental de classe mundial. Aliás, os Linda Martini são aquele típico caso português em que se fosse cantado em inglês tinham o mundo a seus pés. Mas como escolheram a língua de Camões, são apenas nossos e, muitas vezes, sem o devido reconhecimento.
Resumindo “Turbo Lento” em três palavras: poder, força e precisão. Poder devido aos incríveis momentos pós-rock presentes em “Pirâmica”, “Febril (Tanto Mar)” e “Tremor Essencial”. Força pela agressividade rítmica, pelos “riffs” que cortam músicas aos pedaços e sobretudo pela construção prog-rock das músicas “Juárez”, “Tamborina Fera”, “Volta” e “Aparato”. E precisão, pela quantidade de math-rock que ainda existe nas construções do quarteto lisboeta. Podem ser bem ouvidas em “Ratos”, single de apresentação de “Turbo Lento”, e naquela faixa que tem tudo o que referi anteriormente: “Sapatos Bravos”.
“Sapatos Bravos” é, sem sombra de dúvida, o melhor momento de “Turbo Lento”, onde o início desenfreado onde a bateria em “loop” de Hélio Morais e a guitarra de Pedro Geraldes se fundem para acomodar a voz de André Henriques que, também desenfreadamente, canta, expressando mais sentimentos pela colocação da voz do que pela letra. A morte súbita da música para um momento pós-rock devolve-nos o desespero musical, devolve-nos “Olhos de Mongol” na sua versão renovada.
Os Linda Martini são quase um porta-estandarte da música portuguesa. Donos de muita da música que vai influenciar as próximas gerações produtoras de música portuguesa, são realmente uma banda a ter em conta quando se fala do que de melhor se faz em Portugal.
Por: João Gonçalves, estudante de Gestão na Universidade de Coimbra (Twitter: @jpmgoncalves)
**O autor optou por não escrever ao abrigo do novo acordo ortográfico
Próxima semana: Tânia Saraiva



