Mais de 50 lagares vinícolas milenares estão a ser catalogados e limpos no concelho de Trancoso, cerca de 30 só na freguesia de Moreira de Rei. O mentor do projecto de levantamento do património, que está a ser desenvolvido há 10 anos, pretende que estes sítios se constituam como pontos turísticos e de enriquecimento cultural da região. «Está aqui muito trabalho, muita pesquisa e que pode ser importante para o estudo vinícola da região», explica Rui Figueiredo.
Tratam-se de estruturas ligadas ao fabrico do vinho que apresentam as mais variadas formas e dimensões, sendo constituídas por cavidades mais ou menos profundas e extensas, abertas na rocha viva, revelando uma evolução tecnológica através dos tempos. Estes lagares são constituídos por três elementos básicos: um piso ou tanque (calcatorium) onde eram colocadas e pisadas as uvas, bem como um pio (lacus) para onde escorria o mosto através de um pequeno orifício. Por último, aparecem junto a estes lagares pequenas cavidades (stipites) que poderiam pertencer a estruturas de prensas, mas também para fixação de alpendres de protecção contra as chuvas e o calor do sol.
Esta acção começou a ser desenvolvida quando Rui Figueiredo trabalhava no gabinete de História e Arqueologia da Câmara de Trancoso, em finais de 1999, juntamente com um especialista em Geologia. Entretanto, desde 2003, Rui Figueiredo tem-se dedicado a procurar estes sítios, a catalogá-los e a torná-los visíveis aos outros, procedendo à sua limpeza, com a ajuda de jovens, em actividades de tempos livres, no Verão. Actualmente a laborar na empresa municipal Trancoso Eventos, crê que «certos exemplares deste património merecem que a Câmara lhes dê especial atenção para que possam ser considerados, tanto património de interesse público, como, de interesse concelhio, ou mesmo património nacional».
Rui Figueiredo considera que, «pela forma como estão espalhados pelo concelho de Trancoso, e se as várias juntas de freguesia demonstrarem interesse, penso que é muito importante a divulgação destes lagares. Cada junta é que deve olhar pela preservação do seu património». Contudo, esta é uma realidade que parece ainda distante. O investigador lamenta a «falta de interesse» por parte das entidades, já que se trata «de património do mais antigo que há em todo o Douro» e «porque esta zona já não tem muita vinha, mas temos provavelmente o maior levantamento de lagares escavados na rocha no país» e que, em seu entender, «devia ter mais projecção», revela.
Reforça esta ideia, defendendo que «em conjunto, a Câmara de Trancoso e as juntas de freguesia podem fazer um bom trabalho na valorização deste património e dar oportunidade, emprego e ocupação aos jovens, para além da importância ao nível do estudo da produção vinícola na região». A população parece apreciar este trabalho de conservação do património do concelho. José Tavares, residente nas imediações de um dos lagares, na aldeia de Vale do Seixo, confessa ter «medo que as pessoas venham degradar isto». Recorda os tempos em que estes monumentos faziam as delícias das crianças. «Imitávamos os adultos a fazer o vinho. Procurávamos as bagas do sabugueiro e cachos-da-Índia e esmagávamos as plantas nos lagares, juntávamos água e víamos o processo do líquido a escorrer. Eram as nossas brincadeiras», lembra.
O próximo passo será a limpeza de alguns caminhos para o aproveitamento turístico deste património. Para o ano esperemos continuar o trabalho desenvolvido e delinear rotas para passeios em BTT, passeios pedestres e em jipes», revela Rui Figueiredo.
Rafael Mangana



