“Os humildes sofrem quando os poderosos combatem entre si.”
No momento em que escrevo está iminente a queda do coronel Khadafi. A Líbia entra-me agora casa dentro a ferro e fogo. Tanques, obuses, metralhadoras a cada esquina, de tudo um pouco. O caos em si mesmo. Entretanto ouço que a NATO se nega a intervir e que o sempre proclamado (ou autoproclamado?) polícia do mundo afirma, alto e bom som, que nenhuma bota americana pisará território líbio. Isto apesar de, só no passado fim-de-semana, terem sido atingidos dezenas de objectivos em Tripoli… Mas, claro, santa ingenuidade!… esses tinham asas não botas…
Este triste episódio de mais uma guerra civil traz-me à memória a quantidade de vezes que o mesmíssimo ditador foi recebido no ocidente com todas as mordomias de um chefe de estado e mais ainda aquelas que o seu carácter profundamente egocêntrico impunha aos que o recebiam. Em Portugal, mero exemplo, bem me lembro da tenda que foi preciso montar, das cabras que vieram da Líbia, dos manjares que, por força e poder do coronel, tinham que ser aqueles, da monstruosa operação de segurança montada para a excelência… Bem me lembro das vezes em que o Ocidente se ajoelhou perante o poder do líder líbio e mais o que lhe advinha do seu petróleo.
Agora vem o Ocidente, a uma só voz, levantar-se contra aquele que, não há muito, tratava como a um deus? Vem agora condenar práticas que, ao longo de mais de quatro décadas, apoiou ou, pelo menos, ignorou de forma mais ou menos encapotada? Hipocrisia é o termo correcto para definir atitudes deste jaez. Hipocrisia sem mais. E o que é mais grave é que se trata de uma hipocrisia assente em conhecimento da realidade. Ou não se saberia que o povo líbio vivia num sistema que o oprimia, o vilipendiava, que lhe coarctava todas as liberdades tornando-os escravos do seu poder despótico? De facto a frase de Fedro que encabeça este texto faz sentido e é, hoje como ontem, de uma actualidade a toda a prova…
E agora que o ditador deixa um país destruído, dividido, aniquilado por uma guerra que o consome internamente, assobia-se para o lado como se não fosse nada connosco, como se quem nos governa tivesse sido apanhado de surpresa… Ah, mas ele parecia tão bom rapaz!!!… Quem haveria de dizer que seria capaz de fazer uma coisa destas!!!… Aquilo foi bebida que lhe deram e lhe avariou a caixa dos pirolitos!… Não serão estas as palavras que essas, as palavras, serão escolhidas a dedo por especialistas nisto de retórica e comunicação política… Mas o sentimento, esse não será muito diferente. Até porque petróleo continuará a haver naquele solo e será necessário garantir negócios por aquelas bandas nem que para tal se tenha de coar o sangue que, entretanto, se possa ter misturado com o sacrossanto crude…
Razão tinha Bocage quando, num dos seus muitos poemas, este intitulado o”O Leão e o Porco”, afirmava:
“Não há poder algum que mude a natureza:
Um porco há-de ser porco, inda que o rei dos bichos
O faça cortesão pelos seus vãos caprichos.”
E ainda no que a hipocrisia diz respeito: alguém me explica que ponderosas razões terão levado a Igreja a marcar a próxima Jornada Mundial da Juventude. para o Rio de Janeiro e não para, sei lá, o Corno de África, por exemplo?… Mero exemplo, claro!…
Por: Norberto Gonçalves


