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“Hell-o-ween”

Confesso que não gosto do Halloween. Não acho piada nenhuma a algo que não nos deveria dizer nada. De Espanha, diz-se que “nem bom vento nem bom casamento”, no entanto as afinidades com “nuestros hermanos” são infinitamente maiores do que as que temos com os “rednecks” americanos. Esta ideia provinciana, imbuída de um latente complexo de inferioridade, de que temos que imitar os “amaricanos” em toda a sua “cultura-lixo”, para, desta forma, nos sentirmos um pouco mais evoluídos, está a arrastar os nossos jovens para comportamentos e atitudes pouco recomendáveis para a sua saúde. Dos Starbucks aos MacDonalds, das PizzaHut aos KFC’s, passando pelo insustentável e insuportável hábito de arruinar uma boa noite de cinema com o ruído das pipocas mastigadas de boca aberta, são hábitos adquiridos, devidos a um omnipresente bombardeamento pelos media, desde o berço e de que é expoente máximo o “happy meal”. Estamos no mau caminho e, com isso, a arruinar a saúde de uma geração inteira. Somos já o país da UE com a maior incidência de casos de obesidade.

Mas, voltando à vaca fria. Na véspera do dia de todos os santos, fui lembrado por mensagem caseira de que seria aconselhável ir comprar um ou dois sacos de rebuçados para obviar aos “trick-or-treat” que se seguiriam nessa noite. Seria a noite de um costume importado (passo a antítese) para os portugueses – a noite de Halloween (o equivalente temporal americano do, quase extinto, “pão por deus”). Não consigo achar qualquer piada ou interesse à expressão “doçura ou travessura”, muito menos pronunciada por marmanjões e marmanjonas de 15-16 anos. Soa-me tão falso, ou como se diz agora “fake”, como lábios injetados a colagénio, “facelifts” ou mamas de silicone. Há, no entanto, ternura e alguma piada quando nos tocam à campainha criancinhas à procura dos ditos doces. Nada a dizer, apesar das objeções acima levantadas, ainda mais se forem os filhotes dos vizinhos.

Este ano, mais uma vez, preparei-me psicologicamente para uma noite de desassossego. Fui distribuindo rebuçados e despachando os jovens. Ao quinto toque de campainha ia já despachar o segundo pacote. Abro a porta e… dois ovos estatelam-se na porta e na parede, a centímetros da minha cara. Observo, atónito, três adolescentes a correr desenfreadamente rua abaixo e rindo-se à minha custa, preparando-se para se reunirem ao “rebanho” que os esperava mais abaixo. Pensariam que a proeza ficaria por ali. Estavam enganados. Desço à garagem e retiro o carro. Começava, para eles, a noite de “hell-o-ween”. Encetei uma perseguição digna de um “pesadelo em Elm Street”. Tinha que tirar a limpo a razão da atitude irrefletida dos três jovens. Parei o carro para abordar o grupo de cerca de trinta adolescentes. Nesse momento saem disparados os três, dos ovos. Tentei questioná-los, mas eles, pernas para que vos quero, “bazaram”, como agora se diz. Intuí-lhes a trajetória e arranquei tentando atalhá-los. Após algum todo-o-terreno vislumbro-os (mas eles não sabiam). A luz do meu carro fê-los esconderem-se, preventivamente, debaixo de uma escada, junto a uma casa. Pressenti a sensação de “estamos lixados” quando estaquei o carro junto a eles. Saio e, calmamente, peço-lhes para se mostrarem. Quase de imediato um deles sai disparado que nem uma lebre e foge. Mas ficaram os outros dois. Envergonhados, cabisbaixos, juntos, tremendo como varas verdes e preparados para levarem um enxerto de porrada de um desconhecido, questionei-os acerca dos seus atos. Disse-lhes que não apreciava o Halloween mas que alinhava na coisa para não parecer “velho do Restelo”, no entanto não percebia por que razão tinha tido a “honra” de levar com a travessura antes de ter tido hipótese de lhes proporcionar as doçuras. Nem uma palavra. Só o motor se ouvia, assim como o fungar de ambos (deviam estar constipados). Mas o que é que havia para explicar? Como nunca me passou pela cabeça bater em alguém, nem podia sequer, achei que talvez o susto os tivesse feito aprender uma lição e dei por terminada a noite. Desse acontecimento resultou esta história e a deles. A história da noite de “Halloween” que se tornou “Hell-o-ween”. Vaticino que, para o ano, haverá um gozo redobrado em fazerem-me umas travessuras, mas eu, esperá-los ei, no mesmo espírito, à varanda, de luzes acesas e carro “pronto a atacar”. Estou só a brincar… ou talvez não. “Doçura ou travessura?” – só depende deles.

Por: José Carlos Lopes

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