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Gente sã…

Editorial

Não, eu não me tranquei dentro do carro para escrever esta crónica. Mas se o tivesse feito, estaria à mercê das autoridades, porque o Estado, passando por cima dos mais elementares direitos de liberdade individual, passou a ter o direito de decidir sobre o que faço dentro do meu carro. O mesmo Governo que esconde dos portugueses o fim do repasto que pratica sobre os subsídios de Natal e férias e o mesmo Governo que, à sorrelfa, proíbe a antecipação do pedido de reforma, quer decidir que não posso fumar quando a minha filha me acompanha no meu carro!

Estou com sorte, o Estado, a mim, não me vai prender! A bem da verdade, deixei de fumar há tempo suficiente para poder viajar sem correr o risco de a Brigada de Trânsito me mandar parar e me destratar por levar a minha filha num antro de tabaco que os escrivães da puridade vão criminalizar. “Estou limpo” há dois anos.

Mas, de novo a bem da verdade, confesso que já levei a minha filha para a praia ao meio-dia; e que a deixo comer o que ela quiser, das batatas fritas aos hambúrgueres do McDonalds, passando pelas gomas ou pastéis de nata… E confesso que a exponho a doses de colesterol e de chocolates! E que em casa da avó apanha fumo da lareira! E confesso que também já atravessámos a rua sem ser pela passadeira! Vão prender-me?

E se lhes disser que acho inadmissível a palhaçada, definida por gente obtusa, que é a certificação da creche onde tenho a minha filha (e a maioria das certificações não são uma enorme palhaçada? Das certificações de competências, às certificações das câmaras municipais?) e que impõe regras incongruentes, absurdas e patéticas, nomeadamente que só podem comer bolos certificados, comprados em pastelarias certificadas, feitos de ovos certificados, de galinhas certificadas, que comem milho certificado, de terras certificadas, com estrume certificado… quando em casa, felizmente, a minha filha come de tudo. Será que o Estado ama mais a minha filha do que eu?

A lista de crimes que os infames decisores do bem-estar dos outros tem para redigir é infindável – tudo contra a liberdade individual. Se a proibição de fumar em determinados ambientes é razoável e positiva, levar a criminalização para dentro do espaço privado, hoje o automóvel, amanhã a habitação, é de um despudor e intolerância atroz. Mais valia promover uma campanha de sensibilização do género: se conduzir não fume…

As regras quando em excesso são perniciosas. O bom senso deve imperar. Eu, que não fumo, não posso concordar com o espírito destes regradores que, em nome de um suposto interesse público, querem pessoas muito saudáveis, mas quiçá muito infelizes.

Luis Baptista-Martins

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