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Esta minha obsessão

Bilhete Postal

Um populismo destemido existe dentro de mim e quer soltar-se. Tenho este lado florido, colorido, desbragado, esta mão na anca que veste chinelos e camisa aberta, depois se ergue e gesticula e alarga as têmporas e as jugulares. Esta flor histérica, este azeiteiro, esta “bicha exibicionista” pode soltar-se e desconstruir-me a imagem. Durante décadas fui moldando os gestos à cerimónia, fui apertando os conteúdos ao fato e gravata, mas em mim está também este libertário progressista que deseja o impúdico e o perverso, também é exigente em excesso, é de briga fácil, de salgar em excesso a discussão.

A minha obsessão é conter a flor que brota quando menos se espera. Imaginem-me numa reunião do BES, na direção do Ricciardi e do Salgado. Eu de fato vestido, eles a dizer barbaridades, insultando-se um ao outro das diabruras com o Benfica e o Sporting, dos dinheiros da Rioforte, eu corado, retirando o sapato, com a meia de fora, o sapato na mão, os gritos incontidos, recordando o dinheiro meu e dos amigos em risco de afogamento, eles espantados, eu de pé, insultando, gesticulando qual rameira possuída, um sapato em direção ao Ricardo e outro já na testa do Ricciardi, os colegas correndo, um segurança chamado à pressa a querer agarrar-me. Salto sobre a mesa e descalço atiro as meias, bato palmas de dedos abertos, berrando “megeras”, “bandidos” e vejo-me levado no ar, em triunfo. A bichona destemida perdeu o emprego ali, mas deixou nas memórias a história embaraçada da última reunião do banco. Morreu o banco e despi o fato eu.

Por: Diogo Cabrita

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