Penso, embora sem grande certeza, não ser completamente plágio atrever-me a desossar o texto de Woody Allen para o poder moldar à minha perceção do que, no que “acabar de vez com a cultura”, nos toca. Como explicar? Estão a ver aqueles calhamaços – a espessura das obras não tem nada a ver com sobrealimentação das mesmas, decorre apenas do génio literário dos seus autores – nos escaparates das novas mercearias que também são drogarias, garrafeiras, peixarias e talhos? Sim, esses “romances” que mais parecem listas intermináveis de itens… No atual paradigma doméstico da cultura, ser apenas comercialmente rentável, a fim de nunca “incomodar”, com pedinchices, uma qualquer diretora cultural que lhe apareça para o chá, é o modelo vigente! Não quero, com isto, descredibilizar tais obras só pelo seu contorno. Neste particular concordo completamente com Woody Allen: «Temos de nos habituar a olhar os obesos sem julgar.» Digamos que… cada um é que sabe da obesidade com que se cose.
Por isso, nunca me atreveria a julgar o nosso sistema administrativo, tão zeloso das atribuições de diretoras da Cultura de que ninguém ouvira falar até, publicamente, confessarem que se incomodam com pedidos de apoio (legítimos), revelando-se tão obeso. Obesidade mórbida, quando essa diretora fica «muito satisfeita com tanta gente candidata. Só pelos hábitos culturais que se vão ganhar, é muito bom. Mesmo que uma cidade não ganhe a capital europeia da cultura, vai envolver a comunidade toda nesse esforço e isso vai ajudar a criar hábitos culturais». São circunstâncias destas que nos mostram como os nossos julgamentos, correndo o risco de ser inoportunos, devem ser evitados. Mesmo perante afirmações como «gente candidata», em vez de cidades candidatas. Pois embora conheçamos a relação conjugal entre o nosso autarca e a senhora diretora da Cultura, jamais poderemos afirmar que era nele que pensava ao trocar cidade por “gente”. Claro que a dificuldade, deste exercício de contenção, aumentará à volta do evocar a criação de «hábitos culturais», por sabermos como, desde que o marido assumiu a nossa autarquia, os hábitos culturais se têm, ininterruptamente, deteriorado. Convirá sempre lembrar do seu empenho em arrumar Américo Rodrigues, promover o Centro Cultural a álbuns de fotografias de viagens desinteressantes e a persistência com que nos empanturra de ”Tonis”.
Decididamente, sem qualquer festival de teatro, de música, literário, não estou a ver como nos governaremos, no que à Cultura, à Capital Europeia da Cultura, diz respeito. Só que, tendo eu própria veleidades a chegar a pintora, escritora, cantora, sem qualquer ponta de talento ou jeito, com que direito vou julgar obesidades alheias? Não, nem pensar em julgar que esta candidatura, da nossa Guarda a Capital Europeia da Cultura, faz parte de um culto de personalidade. Quando muito, corresponde apenas à sua maneira peculiar de promover o desenvolvimento guardense. Se ainda não demos por isso, é outra conversa. Os fabricantes de cartazes, os fazedores de logos e dinamizadores de eventos, hão-de dar!
Por: Fidélia Pissarra


