1. Quando vemos os avanços da Web 2.0 e a atração por esta forma de comunicação, transmissão e partilha de conhecimento, ficamos paralisados porque não vemos como é que os avanços na tecnologia da Internet demoram tantos anos a passar às instituições escolares e outros tantos a transformar os programas e utensílios de ensino. A Web a andar para a frente e a escola (e outras instituições implantadas) a ficar para trás. É como que uma encruzilhada a exigir-nos um desafio que vai doer sobretudo a quem está de pé frente aos homens de amanhã. Uma instituição velha como a escola demorou séculos a passar do copiar acrítico para o ouvir submisso, muitos anos a passar (sem o conseguir, em estruturas sempre arcaicas) para uma escola de autonomia e participação e muitos anos ainda faltarão para que as tecnologias consigam favorecer com novas dimensões a autonomia e o intercâmbio que as pedagogias não tiveram força de fazer atingir. Andamos sempre muitos passos atrás da rédea que nos puxa lá à frente.
A dificultar a questão está uma instituição escolar auto protetora e conservadora, difícil de se adaptar nas suas estruturas, com os recursos humanos, neste agora e neste aqui, envelhecidos e desanimados, ainda por cima num contexto de paralisação do elevador social e sob a sombra do envelhecimento da classe docente que, em troca da experiência realmente alcançada, reduz a energia e a aceitação de novos modelos, em suma o gosto do risco. Do outro lado, a insegurança dos que entraram recentemente na profissão, uma minoria jovem de quem muito se espera, mas curta, mal paga e acossada pelo “encolher” da rede escolar e pela concorrência das escolas profissionais e outros agentes de ensino. Neste enquadramento, pedir às escolas renovação, autoavaliação e planos de melhoria sem caírem na formalidade e na burocracia ou no fazer de conta é senão suplício de Tântalo, pelo menos Cabo das Tormentas para ultrapassar. Quando pensávamos que a Internet era só um adereço com uma massa enorme de informação, eis que os nossos jovens de “smartphone” na mão nos mostram que a vida se faz de captação da vida, de interação e de intervenção e que a Internet será agora o mundo da partilha do saber, da sua construção em diálogo com outros, do “milagre” ali à mão. Pior ainda é o facto de sabermos que os dois mundos, os dois paradigmas, terão de conviver na escola, mirrando um, crescendo o outro, mas ambos a conflituarem violentamente. Como podemos admirar-nos da indisciplina e da realidade flagrante da recusa da escola pelos “nativos digitais” que cada vez mais não se integram e se sentem perdidos entre a escola que eles desejariam e a que eles realmente têm?
Há dias Miguel Sousa Tavares, habitualmente mal-humorado e violento para os professores e respetivos sindicatos, dizia numa crónica do EXPRESSO que, diante da realidade dos estudos à disposição que provam que os alunos gostam da escola mas não das aulas, é na aula que a transformação da escola se tem de fazer, mesmo contra os atuais dominadores desse espaço. Muito “sangue” terá assim que correr, muita gente terá que ser sacrificada para que a escola se transforme. A verdade é que a escola ideal já existe nos papéis, com a escola a produzir “sucesso escolar e social”, a não ter “abandono e desistência”, a ver os seus elementos em “gestos e projetos solidários”, a ter o “reconhecimento social” do sucesso e do trajeto dos alunos, a conseguir fazer “aprender sem indisciplina”. A distância entre a propaganda e a realidade é no entanto enorme. Matéria para milhares de crónicas.
2. Embora a instituição escolar eduque para a poesia desde a infância, é pequena a percentagem de leitores que se inclina para a poesia lida quando tem a autonomia para isso. Quantos compram um livro de poesia? Quantos procuram por sua iniciativa um site que faculte poesia? Muito poucos. Quanto à poesia ouvida e misturada com outras artes de aceitação mais imediata, nomeadamente a música, ela vai passando e impondo a sua mensagem, quase como se diluíssemos óleo de fígado de bacalhau numa infusão doce. Muitas letras de música não chegam ao nível daquilo que chamamos mensagem poética mas acabamos por aceitar que, tendo o mundo necessidade de mensagens que sejam recados de adaptação, transformação social e conversão pessoal, elas passam para certas pessoas em modo light (uma espécie de “fast food” ou de pista sem obstáculos) enquanto que outros não desistem de atingir essa verdade pelas veredas e caminhos enviesados da montanha.
Pode discutir-se o que é poesia ou se isto ou aquilo constitui poesia, nomeadamente quando a matéria-prima é, para além das palavras, a estilização da voz ou o desenho das letras. Mas não se pode discutir que aceder à poesia (fazendo-a, lendo-a ou ouvindo-a) é a escolha de um caminho do sagrado, que desenhamos como um caminho de vida. E, como quando atingimos qualquer coisa que é superior, no final sentimo-nos plenos, ou pelo menos confortados. Mesmo quando a procura de nós próprios chegou a outra encruzilhada ou nos deixou nus e despojados sem solução (a maior parte das vezes). Satirizando, enaltecendo, cultivando dores ou memórias, a poesia continua a ser ora salvação ora condenação. Mas sempre identidade e busca. Como um altar de oferta aos deuses, um altar em que o poeta (o leitor) se sacrifica.
(Uma referência a três poetas da Guarda que nos meses recentes editaram livros de poesia: José Manuel Monteiro, “A (im)perfeição dos dias”; Maria Afonso, “eu diria que nevava”; e Pedro Dias de Almeida, “Poemas e outros poemas”
Por: Joaquim Igreja



