O edifício do antigo Colégio do Roseiral, na Guarda, vai acolher as futuras instalações da CEDIR (Centro de Imagiologia de Diagnóstico Médico), dois laboratórios de análises clínicas e consultórios de várias especialidades médicas, apurou O INTERIOR.
Situado na Rua Batalha Reis, o imóvel desenhado por Raul Lino entrou em obras há cerca de duas semanas num investimento privado cujos promotores tencionam dar a conhecer à cidade brevemente. A O INTERIOR, um dos investidores, que pediu para não ser identificado, adiantou que a ideia é criar ali «uma clínica o mais abrangente possível em termos de serviços e especialidades médicas». A mesma fonte escusou-se a revelar os valores do investimento, referindo apenas que a empreitada tem um prazo «de ano e meio a dois anos para ficar concluída». Reconhecendo que esta intervenção é «delicada» e «mexe com as pessoas» pela história do imóvel, o empresário tranquiliza os guardenses garantindo que a fachada da casa vai ser preservada e ficará «tal e qual a projetou o arquiteto Raul Lino, pois é nossa intenção preservar a memória do edifício e também a do seu autor».
O projeto já tem cerca de cinco anos e esteve «em “banho-maria” devido à crise, mas considerámos que esta era a altura de avançar», adianta o empresário, segundo o qual o projeto de requalificação resultou de um concurso de ideias entre arquitetos. Construído no início do século passado, o imóvel foi casa de habitação, colégio e sede do CDS e do Clube de Caça e Pesca. De acordo com a informação disponível no site da Direção-Geral do Património Cultural (DGCP), em 1920, João António Figueiredo, um importante comerciante da Guarda, encomendou o projeto da sua casa de habitação ao arquiteto Raul Lino que na altura trabalhava no Sanatório Sousa Martins. Segundo os especialistas, o imóvel projetado inscreve-se «nos modelos de habitação individual, de natureza anti-urbana, que Raul Lino desenvolveu no contexto da “Casa Portuguesa”, tão divulgada através, quer dos seus próprios projetos, quer dos livros que dedicou a esta temática».
A DGCP (ex-IPPAR) reconhece que a moradia «não se encontra entre as mais destacadas obras do arquiteto, mas não deixa de reproduzir a adaptação ao espírito do lugar, de tirar partido da composição orgânica, ou do uso de materiais tradicionais, valores tão caros a Raul Lino». Considerado o último trabalho do famoso arquiteto na Guarda, a habitação foi, posteriormente, adquirida pelo notário António Luís Rebello que, em 1934/35, «alterou a fachada e dividiu o imóvel em três grandes áreas – duas no piso térreo, que pretendia alugar, e o piso superior onde habitava com a família».
Edifício nunca classificado
Com o passar dos anos, o edifício adaptou-se a muitas outras funcionalidades, acolhendo instituições tão diversas como a Cruz Vermelha, o Colégio Roseiral, o Clube Automóvel da Guarda, o CDS ou o Clube de Caça e Pesca. Após a saída deste último, em 1997, a casa, abandonada e já muito degradada, sofreu um violento incêndio em outubro de 2000, que lhe destruiu por completo o interior. Nos sete anos seguintes, o IPPAR procedeu ao levantamento técnico e fotográfico do edifício, onde registou a sua degradação. O organismo alertou as partes interessadas para que fossem feitas obras de consolidação, mas, como isso não se verificou, Andreia Galvão, então subdiretora regional do IPPAR, revogou o pedido de classificação do imóvel. Em consequência, o processo foi devolvido à Câmara da Guarda para que esta o classificasse como imóvel de interesse municipal. O que nunca aconteceu.
Luis Martins


