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«É uma catástrofe para Pinhel»

Habitantes dizem que encerramento da fábrica de calçado vai pôr tudo em causa no concelho

A administração da Rohde não deixou grandes alternativas aos seus funcionários. Ou rescindem os contratos até amanhã ou serão alvo de um despedimento colectivo. «Mas nesse caso, o dinheiro das indemnizações vai chegar mais tarde», avisou Sidónio Lamoso, o administrador da fábrica, aos microfones da Rádio Elmo, a emissora local. Contudo, foram avisados de que terão de continuar a trabalhar até ao fecho da unidade, para acabarem as encomendas em stock.

Uma proposta que Manuela Eusébio não aceita: «Eu vou “cortar o mal pela raíz”. Espero pela carta de despedimento e não trabalho mais. Não adianta lutar por uma coisa sem futuro», diz a funcionária que, em Setembro, teria 15 anos de casa. E adianta que esta posição pode vir a ser tomada por grande parte das colegas, porque o «desânimo é geral». Segundo a jovem trabalhadora, todos se sentem atraiçoados: «Estivemos sempre do lado da administração, nunca houve comissão de trabalhadores, nem sindicatos, e temos uma produção de qualidade, mas somos nós os sacrificados», lamenta, adiantando que o trabalho nunca faltou na unidade pinhelense. Antes pelo contrário, «desmanchámos muita produção vinda da Roménia, pois os sapatos tinham uma péssima qualidade», indica. A empresa tinha cerca de 600 funcionários em Setembro do ano passado, mas desde essa altura que tem vindo a forçar a «saída amigável» de muitos deles, denuncia o presidente do Sindicato Têxtil da Beira Alta. Para Carlos João, os últimos meses foram de «terrorismo psicológico» para instigar a rescisão de contratos. «Ainda no início deste mês deixaram a Rohde 50 trabalhadores», garante o sindicalista, que recorda ter sempre chamado a atenção para este desfecho. «Na altura nunca acreditaram e até nos acusaram de desestabilizar as trabalhadoras, mas, infelizmente, os acontecimentos vieram confirmar que tínhamos razão», lamenta.

Na cidade, desde sexta-feira que não se fala de outra coisa e nem a Feira das Tradições e das Actividades Económicas, que decorre este fim-de-semana, parece vir em boa altura. «Pinhel não tem motivos nem ânimo para festas», garante Miguel Reigado, proprietário do quiosque Avenida. «Quando veio para cá foi a sorte grande, nem acreditávamos no que nos estava a acontecer. Agora o fim da Rohde é uma catástrofe para Pinhel», acredita, considerando que o impacto na sociedade local será «horrível», pois o fecho da fábrica vai pôr tudo em causa. «A cidade estava muito dependente da Rohde. Com tanta gente no desemprego, o comércio será fortemente prejudicado, mas também a creche local, que vai sofrer um arrombo brutal em termos de crianças», acredita, não augurando nada de bom para a sua terra. «Basta dizer que a segunda empregadora do município é a Câmara para verificar que não há grandes alternativas para esta gente e até para nós», lamenta. Segundo Miguel Reigado, pior ficarão cerca de 70 por cento dos trabalhadores agora sem emprego, porque estão «sobre-endividados» com vários empréstimos para pagar. O pior é que o concelho está fortemente dependente da extracção do granito e da vitivinicultura, mas também estes sectores já viram melhores dias. A sombra da crise não tem deixado Pinhel nestes últimos anos e o desemprego de cerca de 20 por cento da sua população activa é uma «machadada» na economia local.

Alternativa: emigrar

A senhora Arminda, empregada do posto de combustíveis da Avenida Frederico Ulrich, recorda que este mês já fecharam três lojas e que, com o fim da Rohde, os supermercados locais também não vão tardar. «Não há cá outro meio de sobrevivência», garante, dizendo que a Guarda também está mal de empregos. «Sempre se pensou que lá ficassem 200 funcionários, mas nunca uma situação destas», adianta, perguntando «o que vai fazer esta gente?». No entanto, considera que o pior virá quando gastarem o dinheiro da indemnização e acabar o subsídio de desemprego, «se a Segurança Social aguentar com tantos pedidos», receia quem trabalhou 11 anos na fábrica. Saiu há dois por causa dos “lay-off”: «Comecei a ver o caso mal parado e preferi tratar da minha vida, em boa hora», acredita agora. Quem lhe elogiou a atitude foi Manuela Eusébio. A jovem empregou-se quando deixou de estudar e confessa que o que lhe vale é um “part-time” como esteticista. «Vou tirar a carteira profissional e espero safar-me, porque não pago renda nem tenho empréstimos a liquidar», refere. O problema é que o marido é um dos motoristas da Rodocôa, empresa de camionagem local, que faz o transporte do pessoal da fábrica de calçado. «Não sei como vai ficar, mas bem não será», lamenta. Por isso, Manuela Eusébio já não põe de parte a possibilidade de emigrar. «Como aqui já não há alternativas, as pessoas têm que se arranjar com familiares lá fora. No meu caso até vai ser fácil arranjar trabalho e papéis em França, porque nasci lá», diz.

Luis Martins

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