Arquivo

Do Direito à Diferença… … à Robótica! *

Associações no Centro Histórico

António (nome fictício) era uma criança que nos bancos do 1.º Ciclo de Escolaridade resolvia as operações aritméticas, de cabeça, imediatamente após o Professor acabar de as enunciar no quadro.

Li-a correctamente e estava sempre pronto para responder às múltiplas curiosidades que eram colocadas à turma.

Foi assim no primeiro ano e depois, sucessivamente, no segundo, no terceiro e quartos anos.

A mudança de Escola, com a ascensão ao segundo ciclo da escolaridade não foi a “janela de oportunidade” que ansiava, pois o seu dia continuou a ser rotineiro, repetitivo, monocórdico.

A seu pedido, seus pais procuraram ajuda; que só encontraram em Coimbra.

Feito o diagnóstico, o Psicólogo concluiu que o António era um jovem portador de capacidades de excelência, mais notória no domínio lógico-matemático, mas globalmente coexistente.

Por sugestão do aludido Psicólogo Conimbricense, batem à porta da Associação Portuguesa das Crianças Sobredotadas (A.P.C.S.), sediada no Porto, que, contra ventos e marés, mantinha uma actividade especialmente dirigida a estes jovens, denominada “Sábados Diferentes”.

No fim do primeiro sábado, após uma jornada inesquecível, partilhada com outros jovens, o António não cabia em si de contente: Estou feliz! Descobri que há outros (jovens) como eu!

Durante meses esta família viajou quinzenalmente, da Guarda para o Porto, onde o António passou a frequentar os “Sábados Diferentes”, que se converteram no seu ‘oásis’ de vida.

Na Guarda, como de uma maneira geral no País, a Escola não tinha respostas para jovens com capacidades excepcionais. O ensino monolítico, repetitivo e lento que nela era ministrado, potenciava a desmotivação e, não poucas vezes, a falta de aproveitamento das crianças e jovens sobredotadas, como o António, que anonimamente a frequentavam.

Por isso, a Escola (era) é vista como um interminável ‘inferno’, pois não atende às necessidades destes jovens, muitas das vezes excelentes auto-didactas.

Neste circunstancialismo, a par de uma luta persistente destinada a alterar a inércia reinante, vencer os valores negativos, desafiar as ‘verdades’ intocadas, tendo em vista obter soluções práticas a que este jovem tinha direito, começou a germinar a criação de uma extensão da A.P.C.S. na nossa Região, o que aconteceu na noite fria de 6 Abril 2000.

Para espanto de quase todos, o Auditório Municipal lotou, na primeira sessão pública de apresentação do Pólo da Guarda da A.P.C.S. destinada à divulgação e sensibilização da temática Sobredotação.

Pais, Professores ou simples curiosos, foram confrontados como uma (para si) nova realidade: a existência de crianças/jovens “diferentes” que tendo um ritmo de aprendizagem mais veloz, cedo perdem o interesse em (continuar) a ouvir (na Escola) coisas que já sabem e não lhes interessa.

Estimando-se que 3 a 5% das crianças/adolescentes que frequentam as escolas são sobredotados, o certo é que a maioria está por identificar. Muitos destes jovens passam despercebidos na escola por falta de estruturas de identificação e acompanhamento. Quase sempre são percebidos por terem comportamentos de hiperactividade, desinteressados ou como alunos incómodos, em conflito com o próprio ensino, que não corresponde às suas expectativas. Sintomático é a afirmação (muito vulgar) do professor confessar que nunca detectou um aluno sobredotado ao longo da sua vida profissional.

A Sobredotação não é um estado homogéneo, nem é identificado com um perfil único.

No passado, o indicador mais fiel para determinar as qualidades excepcionais era, sem duvida, o QI (coeficiente de inteligência) e o sobredotado seria aquele que obtinha resultados acima da média nos testes de inteligência.

Hoje sabemos que o Q.I. não é factor suficiente para determinar se um sujeito se inclui, ou não, dentro da excepcionalidade. Revela fragilidades para determinar o potencial desempenho dos indivíduos em áreas consideradas relevantes como a criatividade, a persistência e a concentração na tarefa; por isso os modelos estatísticos utilizados para a identificação da Sobredotação, a partir dos testes psicométricos, passam a sofrer uma crescente contestação .

Nos nossos dias a Sobredotação assenta sobretudo nas características do desempenho que os sujeitos manifestam, na interacção que estabelecem com os outros, com os objectos e com os conceitos. Assim.

A revelação de uma capacidade acima da média, a persistência na resolução de uma tarefa, níveis superiores de criatividade, são características que os autores (e de entre eles, Renzulli) costumam apontar como indicativas e identificadores dos jovens sobredotados ou portadores de capacidades de excelência e talentos superiores.

Animados do propósito de sinalizar a presença destes jovens e, sobretudo, de lhes disponibilizar um conjunto diversificado de actividades de enriquecimento, num ambiente descontraído e aberto, o Pólo da Guarda da A. P. C. S. vem organizando iniciativas regulares vocacionadas para os jovens sobredotados da região, e igualmente para os seus “amigos do peito”, porque é fundamental a sua plena socialização e o desmascaramento do “rótulo” a que são, geralmente, conotados, fruto das erradas ideias feitas que pululam na nossa sociedade.

Expressão plástica, expressão corporal e dramática, visitas culturais, informática, caminhadas, descoberta do património, ateliers de fotografia, improvisação e voz e, finalmente, a robótica, que será talvez a mais conhecida e divulgada, foram as sucessivas apostas, que contribuíram para proporcionar a estes jovens uma nova qualidade de vida, e abrir-lhes uma diferente e mais dinâmica existência.

A iniciação à robótica, no Outono de 2005, foi pensada apenas como mais uma nova actividade que, fazendo uso da sua intrínseca multidimensionalidade, permitia congregar vários domínios do conhecimento (informática, electrónica, mecânica, física, matemática), relacionando-as e envolvendo outras áreas (musica, dança, expressão corporal, artes plásticas, etc) aptas a oferecer aos jovens novos desafios: idealizar, construir e programar pequenas máquinas, autónomas, dotadas de memória e capazes de desempenharem funções ou tarefas pré-programadas – vulgo ” robots “.

A participação no FESTIVAL NACIONAL de ROBÓTICA (FNR) do ano seguinte foi encarada como uma singela oportunidade de testar os robots, entretanto, construídos.

Pese embora a numerosa concorrência – cerca de um milhar de jovens, provenientes de escolas secundárias e profissionais, de todo o País – as Equipas do Pólo da Guarda da A.P.C.S. ‘arrancaram’ dois 2º lugares e um 10º, respectivamente, nas modalidades a concurso na competição júnior: “Dança robótica”, “Futebol Robótico” e “Busca e Salvamento”. Mais: os dois segundos lugares determinaram duas qualificações para o Robocup 2006 (Mundial de Robótica) que viria a realizar-se na Alemanha, na cidade de Bremen.

Em 2007, nova alegria, pois no FNR, logrou-se repetir o 2º lugar em “Dança Robótica”, o que permitiu ir ao Robocup em Atlanta ( E U A ).

Porém, como não há duas sem três, no ano de 2008 a robótica voltou a ser eleita para preencher as actividades do Pólo da Guarda. E em boa hora o foi, pois, do ponto de vista competitivo, foi um ano de ouro!

As equipas do Pólo da Guarda da A. P. C. S. sagraram-se, no F N R, campeãs nacionais nas modalidades de dança robótica (escalão secundário, idades dos 15 aos 19 anos) e futebol robótico 2×2 (escalão primário, idades dos 8 aos 14 anos), o que teve como consequência a presença, em ambas as especialidades, no Robocup 2008, que teve lugar na China, na cidade de Suzhou;

Também no Festival Nacional “Robô Bombeiro”, prestigiada iniciativa do Instituto Politécnico da Guarda, alcançaram-se mais dois 1ºs lugares, e um 4ºlugar.

Mercê do intenso dinamismo que há oito anos a esta parte desenvolve, o Pólo da Guarda passou a ser, justamente, uma referência nacional, quer no contexto da Associação Portuguesa das Crianças Sobredotadas, quer no âmbito da robótica educativa.

Presença assídua em eventos tecnológicos, competições e demonstrações que vêm tendo lugar em vários pontos do País (Guimarães, Porto, Covilhã, Braga, Viseu, Albufeira, Aveiro, Lisboa) e em diferentes cidades do mundo – Bremen (Alemanha), Atlanta (EUA) e Suzhou (China) – a Guarda, passou a estar na linha da frente da criatividade e inovação tecnológica, o que contribui para a divulgação e projecção da Cidade e da Região, sua história, costumes e património, aliados à ferramenta, por excelência, do século XXI – a robótica !

(*) A. Nabais Caldeira, membro da coordenação do Pólo da Guarda da Associação Portuguesa das Crianças Sobredotadas

Sobre o autor

Deixe comentário