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Diário do festival

Quinta-feira, 12 de Julho

Antes de jantar, com a cerveja a repor as calorias perdidas com os mergulhos no rio, o vento soprou para a esquerda e os preços livres da bebida são substituídos por um único. Mais alto, pois claro! Faltava o dinheiro, sobravam os lugares na zona de alimentação. As primeiras refeições saíram dos sacos térmicos trazidos de casa. Por enquanto, são apenas os adolescentes em férias que ocupam os seus lugares.

No palco Zêzere, três jovens bandas da região mostram o porquê de terem sido convidadas. Missy e MJ deram um concerto que poderia ter sido pensado por um “marketeer”: mostraram aquilo que fazem bem (r&b e soul melódicos e cativantes) e deixaram para o final versões de Xutos & Pontapés, Linkin Park e Bob Marley. Puxaram pelo público, cantaram bem, criaram empatia e ficaram na memória. Dos Clandestinos espera-se que deixem de o ser. Houve talento e qualidade em cima do palco e quem assistiu correspondeu.

Sexta-feira, 13 de Julho

De manhã, a água fria do rio parece ser a melhor conselheira para quem menos precisa. Aqueles que, na noite anterior, mais cedo recolheram às tendas, madrugaram e aproveitam o bom tempo. O (outro) tempo anda devagar e não há pressa para entrar na água. Nas escadas da margem, um grupo de cinco adolescentes desafia-se. Ninguém quer mergulhar em águas tão frias. Na verdade, poucos dos que chegam às margens do Zêzere têm coragem de entrar.

No final da tarde, os choves que tiveram de trabalhar durante o dia juntam-se à “festa”. Alheio a quase tudo, o pequeno Vasco olha à volta dos seus seis anos. A família toma conta do café do parque, e o amigo nunca mais chega. Por isso alinha na brincadeira e, quase instintivamente, posa para as inúmeras fotografias que o vão apanhando naquele jeito de estranho na sua própria casa. Viu montar toda a estrutura, provavelmente estará por ali quando a desmontarem, mas estes quatro dias alteram por completo os hábitos que as semanas de férias já lhe incutiram.

Do outro lado do caminho, Pedro Laginha vai derrubando preconceitos, durante o sound check. Aliás, o artista nem se mostra preocupado com os rótulos que se atribuem a celebridades que depois se dedicam à música. Na mesma tarde, Armando Teixeira, dos Balla, confundiu os festivaleiros. Os três ou quatro temas que cantava pareciam já o concerto que, de noite, se confirmou um grande espectáculo. Isto depois dos The Zippers, da Guarda, abrirem o palco principal.

Sábado, 14 de Julho

É discutível, mas o palco Zêzere recebeu na noite de sábado um dos melhores desempenhos musicais. Rita Mendes prolongou uma noite memorável, depois dos concertos de Dazkarieh, Souls of Fire, Terrakota e Primitive Reason. Estes terão sido, provavelmente, os concertos que mais identificaram o fim-de-semana. Uns, pela envolvência com a natureza, num festival plantado na Serra da Estrela. Outros, pela mistura de géneros, origens e instrumentos, numa mescla que, mesmo diversa, faz mais sentido à medida que aumenta. É o caso dos Terrakota, que montaram no palco uma autêntica mostra de instrumentos, resultado de imensas viagens que, desde 1999, os seus elementos fazem por todo o mundo.

Mas olhar para o recinto do palco principal é, ainda assim, desolador. Dois ecopontos para as 4.500 pessoas que por ali passaram são pouco mais que nada. E esse é um dos temas que vai passando por muitas das conversas que se ouvem. A organização não consegue, sozinha, sensibilizar os visitantes para colocar aqueles milhares de copos de plástico no lixo. As autarquias concessionam a recolha e tratamento de lixos, sacudindo quaisquer responsabilidades que lhes possam ser atribuídas. E as empresas terão mais com que se preocupar, com certeza. Uma semana depois do “Live Earth”, lembrava-se… Há falta de quem reflicta, as tippis (pequenas tendas índias montadas pela organização sob as árvores) vão-se enchendo e esvaziando, numa roda-viva de pensamentos positivos.

Domingo, 15 de Julho

O último dia revelou muita coisa. Primeiro, que os objectivos da organização e os propósitos do festival foram alcançados. Não houve problemas de maior, a ideia de que quase todos seriam da região aproximou os campistas, e a afluência ao recinto superou as expectativas, abrindo portas à continuidade e evolução do projecto. Depois, que o interior acompanha a tendência nacional no que toca ao surgimento de boas bandas. Os The Fury vieram do Porto, é verdade, mas o concerto de Sequela também entusiasmou o público. Não rendilham a letra, a música não complica e o resultado é que até o mais cansado dos espectadores reconhecia mérito à banda.

No final, uma vitória para alguns jovens da Covilhã, que, durante quatro longas horas, montaram e desmontaram tendas, à medida que decidiam ir embora ou ficar mais uma noite. Longas sestas se dormiram, entre as quatro e as oito da tarde, e o despertar revelou que as tendas estavam montadas. Para mais uma noite… Valeu a pena ir a Valhelhas.

Igor de Sousa Costa, em Valhelhas

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