O INTERIOR continua a percorrer os concelhos da região e a analisar os dados demográficos de cada município. Esta semana a paragem é em Belmonte e no Fundão.
Com um crescimento gradual desde 1900, o concelho de Belmonte atingiu o pico populacional nos anos 50, altura em que chegou aos 9.848 habitantes. Contudo, não escapou ao despovoamento e é a partir de 1960 que este fenómeno começa a causar danos irreparáveis na demografia local, tendo perdido cerca de 700 habitantes. Embora esta queda não tenha sido muito significativa, é nas décadas seguintes que o decrescimento populacional se intensifica. A maior descida aconteceu entre 1960 e 1970 quando, em apenas dez anos, Belmonte perdeu 2.659 habitantes. Desde os anos 70 até 2001 registaram-se pequenas subidas, sem nunca atingir – nem lá perto – os cerca de 10 mil habitantes da segunda metade do século XX. Essa ascensão trouxe consigo alguma esperança, mas pouco duradora. Os últimos dados disponibilizados pelo INE são de 2015 e os números continuam a não ser animadores, sendo que hoje Belmonte regista 6.531 habitantes. Curiosamente, se olharmos para os dados demográficos referentes a 1900 e 2015, Belmonte apresenta, nesses dois anos, um número de residentes idêntico (6.579 em 1900).
À semelhança do que acontece em Belmonte, também o concelho do Fundão alcançou o cume populacional na década de 50, quando o município chegou aos 49.941 habitantes, mais cerca de 15 mil do que em 1900 (35.390 habitantes). É a partir daí que o crescimento dá lugar à redução gradual na demografia, sendo na transição de 60 para 70 que se regista a queda mais abrupta, uma vez que o Fundão perdeu mais de 12 mil habitantes no espaço de uma década. Os últimos dados, referentes a 2015, apontam para 27.714 habitantes, ou seja, menos 7.676 que em 1900 e menos 22.227 que na segunda metade do século XX. Os números da evolução populacional são alarmantes e as autarquias lutam, dia após dia, para reverter esta tendência que parece ter vindo para ficar.
Belmonte
O atual autarca belmontense olha para este problema com alguma esperança e otimismo, acreditando «que daqui a dez anos Belmonte estará ainda melhor do que está hoje». Contudo, António Dias Rocha não deixa de referir que o fenómeno do despovoamento, assim como o constante envelhecimento da população, é algo que preocupa a autarquia e, nesse sentido, «estamos a tentar ser mais atrativos, de modo a fazer com que um maior número de pessoas sinta vontade de vir residir para o nosso concelho». Para o edil o Governo tem um papel crucial na inversão deste fenómeno, considerando que o poder central «deve tomar medidas de discriminação positiva para o interior, como reduzir as taxas de circulação rodoviária, criar incentivos aos empresários e dar melhores condições aos profissionais para que sintam vontade de vir para cá». Apesar destas serem expectativas, a verdade é que a Câmara de Belmonte tem vindo a implementar algumas medidas de combate ao despovoamento.
Dias Rocha explica «nós estamos a dar condições especiais a todos os empresários que investem no concelho, nomeadamente preços simbólicos para a venda de terrenos no nosso parque industrial e isenções de IMI durante anos, dependendo do investimento feito e do número de postos de trabalho criados». Mas a autarquia não se ficou por aqui, estando também a dar apoio às famílias jovens que residem em Belmonte, nomeadamente no que reporta ao nascimento do primeiro filho. De acordo com Dias Rocha, «estamos a dar as condições possíveis dentro das limitações que temos como concelho pequenino». O edil lembra a importância da cultura para Belmonte, adiantando que é uma grande atração e leva pessoas aquele concelho de vários pontos do país e do mundo.
Fundão
Para o presidente da Câmara do Fundão, «não há nenhum território de baixa densidade que nas próximas décadas não vá perder população». «No meu entender vai demorar 20 a 30 anos até que este padrão se possa reverter, isto porque, em termos demográficos, as coisas não se resolvem de um dia para o outro», confessa Paulo Fernandes.
De acordo com o edil fundanense, estamos perante um índice de envelhecimento que foi acumulado durante décadas e que torna impossível não perder habitantes. O concelho do Fundão, segundo o autarca, apresenta um índice de envelhecimento correspondente a 239 por cento. Embora o município registe uma tendência para diminuir o ritmo de perda de população, para Paulo Fernandes o dado mais importante é que, em 2015, o concelho atingiu um saldo migratório positivo, ou seja, «são mais as pessoas que vêm para o Fundão, nomeadamente trabalhar, do que aquelas que saem», adiantou. É por isso que, para o autarca, há um fator fundamental: a atração de população ativa. De acordo com o edil, isso só é possível através da «criação de mais postos de trabalho, assim como de políticas públicas nacionais de discriminação positiva para o investimento e para as empresas da nossa região».
Nesse sentido, a autarquia fundanense tem adotado nos últimos anos medidas para reverter a situação. Começando pela adoção de uma política de atração de investimento e passando pelo aumento de empregabilidade em diferentes áreas, não só tradicionais (área agroalimentar, do turismo, do social, entre outras), mas também das tecnologias da informação. «Não temos dados concretos, mas perspetivamos que tenham sido criados cerca de 500 postos de trabalho na área das novas tecnologias, o que é fundamental para o desenvolvimento do concelho e da região», explicou.
Paulo Fernandes acredita que «se, na década de 60 e 80, não se tivesse assistido ao fluxo de emigração, e se em 2010/2011/2012 não tivéssemos passado pela crise, provavelmente hoje estaríamos melhor. E isso, em termos demográficos, tem consequências 30 ou 50 anos depois, aquilo que estamos a viver agora é repercussão daquilo que aconteceu há anos».
Sara Guterres


