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Desordem de Eduardo Lourenço exposta na BMEL

Inauguração da mostra “Entre Páginas” transformou-se num momento de partilha entre os primeiros visitantes

«Esta não é uma homenagem, mas antes uma sessão em que se dá o reconhecimento de Eduardo Lourenço», esclareceu Virgílio Bento, vice-presidente da Câmara da Guarda, na abertura de “Entre Páginas”, na Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço (BMEL). Afinal, aquela é a casa do ensaísta e, ao ser dele, é de todos nós. Foi este o sentimento vivido a cada estória, leitura ou silêncio na cerimónia da passada segunda-feira.

Eduardo Lourenço não esteve, mas foi como se estivesse: «Trouxemos parte da vida dele, trouxemo-lo aqui connosco», afirmou o também vereador da Cultura. A presença do pensador é sentida nas partilhas que, ao jeito de um serão em família, entusiasmaram quem está de fora com os relatos de quem “viveu” dentro. Como quando Virgílio Bento entrou com o autor no seu “caos”, onde os livros se acumulavam em “pilhas” e surgiam papéis em locais inesperados: «Estava uma confusão, os livros amontoados, tudo desordenado. Até me confidenciou que tinha perdido o diário», revelou o vereador. Para Eduardo Lourenço, aquela era a reprodução física da desordem com que as ideias nascem: «Pegou nuns papéis e disse-me que o “Labirinto da Saudade” tinha começado ali», recordou Virgílio Bento.

É esta a origem insuspeita da mostra que, até final do ano, estará patente no rés-do-chão da biblioteca da Guarda e que consiste numa amostra da inspiração, sem ordem nem lei, do ensaísta. São recortes, manuscritos, cartas, pensamentos escritos em sítios improváveis – como bilhetes de avião ou de espetáculos, entre outros pedaços de papel, ocupados pelos seus famosos “hieróglifos”. Descobertos por acaso, aquando da organização das obras doadas, são papéis que tinham sido esquecidos entre os livros, repletos de história e, por conseguinte, «da essência» de Eduardo Lourenço.

A sessão não foi uma simples troca de palavras, mas o encontro destas, dispersas entre cortes, recortes e memórias recordadas com afeição. Falar é preciso, mas os rostos espalhados pela sala diziam mais do que permitem as palavras. Em cada olhar, sorriso ou confraternização da plateia, Eduardo Lourenço estava presente; não apenas o autor, mas sobretudo o guardense, aquele que é “nosso”, igual a tantos mas melhor que muitos.

Sara Quelhas Exposição pode ser vista na sala Tempo e Poesia até ao final do ano

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