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Deco e os valores da “Alma”

Escrevo quando Deco marcou um golo fantástico que nos assegurou a passagem aos oitavos de final do Mundial da Alemanha. Não sei o resultado do Portugal-México, mas acredito que Deco tenha jogado e bem. O “mágico” tem um lugar incontestado na equipa das “Quinas” e tem honrado a camisola e a nação. Faço esta ressalva para que fique claro que nada tenho contra Deco enquanto pessoa e profissional.

Do ponto de vista racional, é verdade que Deco é português. Assim, tem direito a estar na Selecção Nacional de Futebol tanto por mérito como por direito de cidadania. Também é verdade que outros naturalizados já envergaram a camisola nacional, no atletismo, no Voleibol, no Andebol… Acontece que, o Futebol é tudo menos racional, é um forno de paixões. Por isso, a sua integração na “equipa de todos nós” tem de ser analisada por outro prisma.

Nas outras modalidades temos poucos atletas com projecção. Utilizar “naturalizados” é uma questão de “recursos humanos”, de evolução e consolidação das diversas modalidades. Agora o Futebol é diferente. Trata-se do “desporto rei” nacional, a grande paixão de um povo, e um desporto onde não faltam abundantes jogadores e com qualidade. As imagens que todos os dias transbordam da televisão confirmam que o futebol é um dos poucos espaços que nos restam da nossa “portugalidade” e da nossa afirmação além fronteiras. Estamos pois, a falar de “valores”…

Deco vestiu a camisola da selecção portuguesa como quem veste a camisola de mais uma equipa. Com o profissionalismo que lhe é pedido e com a paixão por mais um “clube”. Da mesma forma que, se eu viver seis anos no Brasil, por certo não me sentirei brasileiro, também Deco não se naturalizou por se sentir português. Naturalizou-se porque entendeu – e bem – que era favorável à sua carreira. O que se veio a confirmar. Para além da sua notável prestação no F. C. Porto, jogar no Europeu.2004 valorizou o seu “passe” e o estatuto de comunitário facilitou a sua saída milionária para o Barcelona.

Por outro lado, Governo e Federação Portuguesa o que quiseram sempre foi um bom Euro.2004 para justificarem o investimento que foi feito num oneroso treinador e dispendiosos campos de futebol. O que foi (em parte) conseguido. O que querem ainda, e bem, é vencer jogos, conseguir resultados. Estamos a falar de “outro tipo de valores”…

Temos assim, que os resultados justificam os meios. Qualquer dia, em nome desses resultados, tal como já acontece na maioria dos clubes, teremos uma selecção de “estrangeiros” nacionalizados.

Afinal, parece que não é a integração na União Europeia que nos rouba a identidade nacional. Nós é que estamos dispostos a vender um pouco da Alma portuguesa para ganhar um jogo de futebol… Espero que Deco marque muitos golos!

Por: João Morgado

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