Os últimos dias ficaram marcados por renúncias e ausência de estratégias. Renúncias várias que a ninguém deixou mais descansado. Ausência de estratégias que a já ninguém surpreende.
Vítor Bento, um dos ideólogos deste Governo, fora escolhido para liderar o BES pós-Salgado. A escolha devera-se não à sua experiência e conhecimento do sector, mas à aura que com ele transportava. Essa aura permitiu ao Governo vangloriar-se por uma escolha supostamente unânime, quiseram fazer crer.
Mas Bento, sabedor dos motivos que levaram à sua escolha, ainda assim, cheio de si próprio, não se deteve. Nem a guinada na estratégia para o futuro do BES, cuja parte boa resultaria no Novo Banco já sob os auspícios da sua direção, o fez desistir do que disse, na SIC, encarar como um «dever quase patriótico». Bento assistiu às continuadas mudanças de objetivo face ao inicialmente acordado com o Banco de Portugal e… o Governo. Todavia, Vítor Bento, que estava para e pelo carisma, foi aceitando.
O problema, como notou o jornalista Celso Filipe, do Negócios, está no “quase” e foi esse “quase” que faltou. A discordância com o plano de venda rápida, sem espaço temporal para criação de valor, assumindo como objetivo único a não perda do mesmo, foi a gota de água que fez transbordar o copo do dever patriótico de Vítor Bento. Dever que fica sempre bem. Mas no meio de tanta indefinição, fica por perceber se aquilo que determinou a iniciativa quase patriótica foi o excesso de ego ou uma deriva voluntarista. O Governo, viu-se outra vez, não tinha estratégia.
Também de renúncias vem sendo marcada a campanha para as primárias socialistas, com substância política de menos e ataques baixos a mais. António José Seguro renunciou desde logo à idade adulta e fez uma campanha de queixinhas e azedumes. António Costa, que a tal devia ter renunciado, só tarde e a más horas acabou por renunciar à propaganda virulenta de ataques pessoais.
Nenhum dos Antónios quis falar para e sobre os problemas dos portugueses. Renunciaram explicar ao que vêm e porquê. Não se querem comprometer, mas esquecem que da falta de compromissos nascem os Marinhos e Pintos desta vida. Sabe-se apenas que querem ser primeiro-ministro.
Seguro porque considera justo e merecido depois de tantos anos, primeiro a regar a semente, e depois a cuidar do cravo, qual dono do 25 de Abril que nunca conheceu, nem sequer em espírito. Costa, apenas e tão só por se considerar melhor, que o é, do que Seguro. Nada mais, porém. Se Seguro não renunciou à falta de ideias e convicções, porque as não tinha, Costa preferiu fazer-se de morto, papel outrora atribuído ao atual secretário-geral. O autarca lisboeta acha que quanto menos disser, menos se engana e compromete, evitando tardias “desculpas políticas” tão em voga nos tempos que passam, preferindo acreditar que o silêncio o levará, melhor ou pior, ao poder. É o mesmo silêncio e vazio de ideias que levou e manteve Seguro no poder, pelo que tal projeto assume-se parco e desinspirado.
Por: David Santiago


