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Como é estúpido a porra do texto

Escrevi aqui a semana passada que Portugal pode crescer como as papoilas nas canções de Ermelinda Duarte. De imediato vozes de protesto se fizeram ouvir, embora se tenham calado depois da medicação. Estavam contra as referências da cultura popular. Que devia citar Zweig em vez de Marco Paulo. Dizem-me que os retratos pacheco-pereiristas da austeridade se encontram na estiva de Elia Kazan, mas eu leio a fúria do intelectual e revejo o refrão de Ágata: “Tira-me tudo na vida e o mais que consigas, mas não fiques com ele”.

Ouço os números do desemprego. Dizem-me para falar de Steinbeck, de ratos e homens, mas aos que estão nesta condição imagino-os a trautear Veloso e Tê, “passo horas no café, sem saber para onde ir, tudo à volta é tão feio, só me apetece fugir”, fugir deste esgoto mesmo que em troca por outro lixo.

A propósito das medidas para o crescimento, onde vozes vêem a novilíngua de Orwell, um artifício que separa a realidade da semântica, a criação de uma ilusão a partir de um discurso, eu reconheço a melodia de Ermelinda Duarte, “Uma papoila crescia, crescia, grito vermelho num campo qualquer. Como ela, somos livres, somos livres de crescer.” Não haja dúvidas que o empreendedorismo é o contemporâneo grito vermelho que nos capacita para crescer, crescer apenas pela força da vontade. Por que raio não há-de crescer uma papoila se for livre de gritar num campo qualquer? Não foi com certeza por acaso que Júlio Dinis escreveu sobre isso no seu romance clássico “As Papoilas do Senhor Reitor”.

Por: Nuno Amaral Jerónimo

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