“Luz, câmara e… acção”. A ordem repete-se todas as quartas-feiras na sala de cinema Cidade Nova, no Fundão, minutos antes da tela projectar os filmes do Cine-Clube Gardunha (CCG). Há três anos que um ambiente intimista atrai semanalmente cerca de 50 cinéfilos naquela sala do centro comercial fundanense.
Ávidos por «outro tipo de cinema» no concelho, os onze elementos fundadores da colectividade abraçaram o desafio lançado pelo vereador da Cultura da Câmara local e andam, desde então, quase «com a casa às costas» devido à inexistência de uma sede, salienta Miguel Cardoso, presidente do CCG. «Neste momento, o Cine-Clube funciona em casa dos elementos da direcção. A minha, por exemplo, está cheia de cartazes e filmes antigos», adianta. Uma realidade que mudará em breve com a construção da Casa da Moagem ou do Cine-Teatro Gardunha, já que os jovens cine-clubistas estão incluídos no projecto de exploração dos novos espaços. Assim, o CCG poderá embarcar no «espírito intimista» próprio dos cineclubes e expandir a actividade, que neste momento passa apenas pela divulgação dos filmes que os cerca de 150 sócios pretendem. Uma tarefa que «não é fácil», uma vez que é complicado adquirir os filmes que os sócios desejam. «As distribuidoras já não têm filmes antigos e, além disso, há certos filmes que não poderemos trazer na altura em que desejamos, pois só exibimos uma vez por semana. E é claro que as distribuidoras preferem enviar o filme para salas que tenham mais dias de exibição», aponta.
Seja como for, ideias não faltam a Miguel Cardoso para usar os novos espaços culturais que estão a nascer na cidade. Ciclos temáticos dedicados a realizadores e filmes, debates, colóquios e criar uma filmoteca disponível aos sócios são alguns dos projectos em carteira. Fã do cinema fantástico, o presidente do CCG ambiciona ainda poder realizar um festival semelhante ao Fantasporto. Na Invicta, «as montras são alusivas ao festival e gostaria de ver o Fundão, que é uma cidade mais pequena, mergulhada nesse espírito», confessa. Uma ideia que fica em “stand-by” devido à existência do Imago – Festival Internacional de Cinema e Vídeo Jovem que se deslocou há um ano para o Fundão. «Numa cidade como esta é impensável a realização de dois festivais de cinema, se bem que o Imago é mais generalista e a nossa ideia era um festival mais intimista e especializado num género. Fica para um futuro», desabafa.
Apoiados actualmente pela autarquia, que suporta o aluguer da sala e dos filmes, o CCG ambiciona crescer e garantir apoios do ICAM para desenvolver ainda mais a divulgação de filmes, mas sem que sejam obrigados a respeitarem a «quota» imposta pelo instituto para exibição de filmes portugueses. «Como só temos uma sessão, achamos que a programação ficaria mais pobre. Ainda há pouco estrearam dois filmes portugueses que são uma completa anormalidade», opina, considerando que o cinema nacional apenas terá qualidade quando houver uma indústria. «O Estado não pode subsidiar realizadores que são pseudo-Manuel de Oliveiras, para os quais o filme apenas tem sentido na sua cabeça. Se o cinema não é para o público, para quem é?», interroga. Miguel Cardoso defende que o Estado deve subsidiar «este tipo de filmes mais independentes, mas também o dito “comercial”, que leva as pessoas às salas de cinema». De resto, a sua preferência vai para filmes como “Lady Runner”, de Ridley Scott, “Evil Dead”, de Jim Rynning, “Braindead”, de Peter Jackson, ou “Táxi Driver”, de Martin Scorsese.
Liliana Correia


