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Cidade-gente

Opinião – Ovo de Colombo

“Sinédoque, Nova Iorque” (Synecdoche, New York, 2008) é uma pedra preciosa entre os filmes feitos nos últimos dez anos no cinema norte-americano. Em primeiro lugar, Charlie Kaufman, famoso e premiado pelos seus argumentos – “Eternal Sunshine of The Spotless Mind” (2004) valeu-lhe o Óscar –, passa para trás das câmaras e traz, no papel de realizador, o seu próprio imaginário a três dimensões. Na produção está Spike Jonze, também bastante inovador no que diz respeito à realização e do qual falámos na minha última crónica neste espaço.

Com a saúde e a vida pessoal em queda, Caden Cotard (Philip Seymour Hoffman) investe num armazém e naquela que seria a peça da sua vida: mas leva esta ambição mais longe e acaba por recriar o seu passado/presente, que se desconstrói depois em diversos fragmentos. A simbologia e os maneirismos criativos a que Kaufman nos habituou regressam neste apaixonante “Sinédoque, Nova Iorque” (2008), com a discussão do individualismo e da capacidade de o ser humano entender a sua posição na sociedade a pautarem o ritmo de uma obra tendencialmente lenta. Mas não só.

São várias as camadas, perceções e ilusões que fomentam a realidade de Caden, que é transitória e que vai muito para além do tempo e da sociedade com que habitualmente nos “medimos”. Esta efemeridade conceptual e humana é contraposta por uma acentuada crítica social, que vai desde a deformação do corpo à construção de um modelo da cidade de Nova Iorque, com barreiras, ruídos e dramas que recriam a incapacidade de, tantas vezes, nos apercebermos do que se passa à nossa volta (e até connosco). Todo o filme é uma ode à criatividade, às relações interpessoais e à cidade de Nova Iorque, sendo que as interpretações dos significados presentes são variadas e nada consensuais.

Os pequenos pormenores, as confusões e a teatralização do quotidiano intensificam-se e intensificam a ação e, caso revejam o filme, este vai despertar novos entendimentos. Se no início os “pormenores” passam despercebidos, com o tempo ficamos em alerta para essa dimensão fílmica, que vai sendo mais frequente com o decorrer da ação: o que é dito, o que acontece e o que se espera rompe todas as barreiras “tradicionais”. Esta espécie de porta – que fica em aberto – é uma “inquietação” já conhecida por quem costuma ver os argumentos de Charlie Kaufman que, com tanta facilidade, saem da tela e embrenham nas nossas vidas.

Sara Quelhas*

@Última Sessão (fb.com/ultimasessao.cinema)

*Mestranda em Estudos Fílmicos e da Imagem (Mestrado em Estudos Artísticos) na Universidade de Coimbra

Sobre o autor

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