Eu bem queria escrever sobre outros assuntos, mas a ULS da Guarda insiste em mobilizar de forma chocante a minha e a vossa atenção…
Não vou aqui fazer juízos de valor acerca do último escândalo, o tal que envolveu a nossa maternidade e a morte de uma bebé. Tenho visto escritos por aí muitos disparates, com pessoas a botarem palpites sobre aspetos clínicos que seguramente, tal como eu, não dominam, razão pela qual não darei para esse peditório. Limitar-me-ei a aguardar pelas conclusões dos inquéritos conduzidos pelo ministério da Saúde e pela Polícia Judiciária.
O mesmo cerceamento de ação não se aplica contudo à forma como a administração da instituição, que todos sabemos ter sido escolhida a dedo por Álvaro Amaro, se comportou em todo este dossier. Teria sido muito difícil colidir com tanta incompetência e inabilidade. Para além de tudo o que esteve mal, que foi muito, o próprio diretor clínico, Gil Barreiros, nunca deu a cara pelo problema, “de-solidarizando-se” dos médicos e abstendo-se de manifestar confiança nos serviços da própria instituição que dirige…
Mas não é nesta administração hospitalar que já cheira a cadáver, ou em Álvaro Amaro, que eu venho hoje bater. Aliás, diga-se a talho de foice que Álvaro Amaro tem a sua própria sarna para se coçar, sendo hoje impossível esconder a falta de entusiasmo com a sua candidatura por parte de muitos dos militantes oriundos da sua área política.
É do PS que vos venho falar. PS que é governo há mais de 15 meses, e que por isso não pode continuar a dizer que tudo o que vai mal na ULS é da responsabilidade da administração nomeada pelo PSD. PS que só demitiu os homens de mão de Álvaro Amaro através de uma lei para a Saúde feita à la carte, quando teve desde o primeiro minuto razões mais do que suficientes para o fazer por justa causa.
Durante todo este tempo assistiu-se a uma degradação imparável da prestação quantitativa e qualitativa do nosso hospital. Há vários serviços clínicos em situação de rutura, estando alguns deles em risco de encerrar a breve prazo, como é o caso da Oftalmologia, da Otorrinolaringologia ou até da Cardiologia. Outros, como a Gastroenterologia, já vivem ligados à máquina, com uma única médica a trabalhar a meio tempo. Da Cirurgia e do que por lá vai, já nem falo. A Urgência médico-cirúrgica, que depende da interdisciplinaridade de múltiplas valências, é por isso uma ficção que os nossos políticos insistem em não querer reconhecer, por simples cobardia eleitoral ou por simples falta de verticalidade cívica. Continuamos por isso a viver no faz-de-conta.
Como utente e conhecedor dos meandros da casa é para mim patente que os conflitos potenciais na instituição são mais do que muitos e poderão explodir ao menor erro cometido pela futura administração. É gritante a falta de capacidade política do aparelho local do PS para compreender a gravidade da situação e para ajudar a tutela a encontrar uma solução funcional e consensual para a gestão da instituição. Imagino que venha por aí uma nova administração forjada a martelo, com muitos remendos a cavalo.
No meio de uma espécie de guerra civil que nunca acabou, distraído com a corrida aos tachos e com os pequenos ódios pessoais, o PS local nem sequer conseguiu até à data em que escrevo esta crónica escolher um candidato para se opor a Álvaro Amaro! A ULS tem mais minas por metro quadrado do que as praias da Normandia no dia D, mas há por aí gente que acha que a desminagem se faz com o cartão do partido na mão…
Anuncia-se por isso um desastre a prazo. Não me espantaria que em poucos anos fosse reeditada a velha ideia do substituição do nosso hospital por uma espécie de “centro de saúde avançado”, com serviço de SAP integrando apenas um médico de cada uma das especialidades hospitalares, para avaliar e para sinalizar doentes que seriam depois operados noutro hospital. O silêncio do PS sobre o presente e o futuro da instituição diz mais do que toda a propaganda ou demagogia que se pudesse fazer sobre o assunto.
Cada povo tem o governo que merece. A Guarda, pelos vistos, nem isso…
Por: Jorge Noutel


